Minha camiseta e a farsa revelada

Tenho uma camiseta com a estampa Written and Directed by Quentin Tarantino por motivos que pra mim são óbvios, eu amo Quentin Tarantino.
Dia desses topei com um cara que vestia a mesma camiseta. E meio como naquele meme do Homem-Aranha, nos apontamos e rimos e logo em seguida ele me disse:
– Mas você se vê como uma personagem dirigida por ele? Porque eu com certeza sou.
– Que horror. Não.

Não, definitivamente não seria Django que volta para vingar todas as humilhações sofridas como escravo, não seria Shoshana aniquilando nazistas com fogo e rindo deliciosamente, nem Mia Wallace sangrando pelo nariz vivenciando os extremos da vida, uma pena mas também não seria Jules Winnfield interpretado por Samuel L. Jackson dizendo uma das falas que eu mais gosto “English, motherfucker. Do You speak It?”, amo, mas não me cabem.

Geniais.

Existem mais, vocês sabem. Um mais arretado que o outro (tomei a expressão baiana emprestada pois somente ela expressaria o que eles são).
Todo personagem do Tarantino é um trator, não mede consequências, apenas vai. Cada um deles impõe respeito através da força, do medo, do poder.
Assisto, observo, amo as falas como em Cães de Aluguel por exemplo. Que filme.

Fiquei me perguntando então, quem teria me dirigido. Teria sido Woody Allen? Não. É que as moças nos filmes dele são pastéis demais, não sou pastel. Tem o Wes Anderson, seria bom pelas cores e pela complexidade e por Owen Wilson que gosto muito.
Mas precisamos seguir pela realidade do que se é, vestindo minha camiseta Escrito e Dirigido por Quentin Tarantino teria que assumir que sim, me aproximo muito mais de Guel Arraes, sobretudo em Lisbela e o Prisioneiro.

Não pelo mocinho e pela mocinha que se apaixonam, mas por conta do encanto pela palavra e pela simplicidade das coisas. As coisas bonitas e pequenas que dinheiro nenhum compra, já que todos ali são pobres, pobres no bolso e ricos de espírito. Cada personagem dele é uma revolução da alma, um grão de areia brilhante, uma noite quente, a busca por soluções através de outros meios que não a força. Tem a fala de Lisbela “O amor é um precipício, a gente se joga nele e torce para o chão nunca chegar”, seria algo que eu teria dito se não tivessem escrito pra ela.

É assim que me vingo, é assim que tento mudar o mundo, através de outros meios, através da palavra, e eu por menor que seja, também sou um grãozinho de areia brilhante e teria Caetano Veloso tocando ao fundo.
Eu entendo Quentin Tarantino, mas recusaria o papel. Ainda visto a camiseta, mas saiba que sou mais Guel Arraes.

Uma sessão por semana

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Johnny, eu queria te falar que não tenho nada do que reclamar.
Que a vida é uma experiência psicodélica de gratidão sem fim, que eu beijo unicórnios todas as noites e que o ar que eu respiro tem as cores do arco-íris.
Mas não é bem assim, e seria pra você, Johnny? Eu duvido que seria.
Mas não é sobre você, é sobre mim, certo?
Então, vamos lá.
Eu acordo todas as manhãs sem despertador porque o despertador sempre me deixou enfurecida, sendo assim, me programo pra acordar. Tem funcionado há anos, não pretendo mudar.
Tomo café preto, às vezes tão sonolenta que nem sinto que estou tomando, não gosto de café, de vez em quando troco por suco de laranja, não faço chá, não tenho paciência de esperar pela manhã a água ferver, esperar o chá entrar em fusão, esperar esfriar, e aí tomar o chá, mas prefiro chá, olha que coisa. Chá de erva-doce, chá de erva-cidreira.
Eu gosto de tomar banho de manhã, e ouvir música, gosto da música num som suficientemente alto para que eu possa ouvir por toda a casa, só eu, a música e minha gata em passos lentos, do quarto para a cozinha, da cozinha para o banheiro e do banheiro para o quarto.
E eu falo sozinha, imagino conversas que nunca acontecerão, e torço pra que elas aconteçam de um jeito meio apaixonado eu diria, mas tudo bem se não acontecer. A vida é um susto quase o tempo inteiro. A gente planeja, inventa rotas, e sai tudo diferente, nada é como esperado, até esse momento, você não acha? Eu aqui, falando sem parar, te contando coisas que não farão a menor diferença pra você.
Eu gosto de ouvir músicas tristes, e não é porque eu sou uma pessoa triste, eu não sou. Acho que minha risada é uma das coisas mais alegres, sem dúvida, mas as músicas tristes me fazem pensar,  pensar é bom.
Tem noção do quanto eu já devo ter sido idiota, Johnny?
Eu tenho.
E fui idiota pra não ser idiota, aí é que mora a ironia.
A gente é besta.
De que adiantou me proteger de coisas que eu não fazia a menor ideia se aconteceriam, tava tudo na minha cabeça. Um amigo disse pra eu ficar tranquila, que eu ainda vou ter muita oportunidade pra ser idiota, que não fiz nada de grave até agora, mas sabe como é? É difícil olhar pra trás e me ver como naquela cena do Leonardo DiCaprio em que ele joga dinheiro de cima do Iate no filme O Lobo de Wall Street, eu não joguei dinheiro, mas joguei tanta coisa… Você já deve ter feito isso, você é humano, Johnny. Humanos tem essa coisa de errar achando que estão acertando.
Mas é isso, não é? Tá tudo bem, é o que você vai me dizer, que está tudo bem.
E eu sou tão boba, mas tão boba, que eu acredito, e te entrego meu sorriso mais largo, porque apesar da vida não ser feita de unicórnios e arco-íris, ela é boa, é muito boa, Johnny. E olha que eu tenho chorado um tanto, e mesmo assim, acredito nisso.

Nossos caminhos

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Todos os caminhos são incertos.
Nenhuma escolha é garantida.
O que podemos fazer é caminhar assim mesmo, e parar de vez em quando para sentir o cheiro das flores, ver o sol indo embora enquanto o céu muda gradualmente de cor, e de repente, de uma só vez, a escuridão toma conta de tudo. Não podemos esquecer que haverá um novo dia, com um novo nascer do sol, que é tão lindo quanto o pôr do sol.
Continuar neste caminho, apesar de tudo, ainda é o melhor que podemos fazer.

Um conto de fadas e blá blá blá

Não vou mentir. Eu ainda sou uma romântica que talvez esteja à espera de um príncipe num cavalo branco, mas sou uma romântica pós moderna. Não fico presa no alto de uma torre escovando meus longos cabelos e suspirando pelos cantos.
E do meu sono profundo já acordei faz tempo.
Eu pulo dessa torre, eu corto meu cabelo bem curtinho, saio por aí descobrindo o mundo e me descobrindo também. Eu enfrento os perigos da floresta, domino meus dragões, uso vestidos de festa e danço só quando quero dançar.
Talvez o príncipe tenha até aparecido enquanto eu estava fora, mas não é culpa minha se ele aparece sem avisar. Tô por aí, a gente se esbarra, e quando a gente se esbarrar, falaremos dessas bobagens de amor que a vida prometeu pra nós dois, dois fugitivos de uma vida cheia de regras, e com torres pra saltar. Seremos acima de tudo, divertidos.

Eu já devia ter me acostumado

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Cheguei neste mundo como muitos de vocês chegaram.
Deixei o corpo da minha mãe graças a uma cesárea realizada dentro de um hospital com nome de Santa. O médico que me tirou de dentro dela me deu um tapa, deve ter dado parabéns pra minha mãe enquanto fazia isso, “Uma bela menina você tem aqui”, plau! tapa no bumbum do bebê.
E sumiu.
Talvez tenha ido descansar depois do seu dever cumprido.
Não sei o nome dele. Nem ele sabe o meu. Já deve ter trazido mais de centenas de bebês pra essa cidade maluca que é São Paulo.
Uma única pessoa responsável por mostrar o mundo trágico, sarcástico, corrido, agitado, cruel, algumas vezes amoroso, tudo num único ato.
Dizem que o bebê não chora por conta do tapa. Ele chora porque respirar pela primeira vez dói. Os pulmões funcionando pela primeira vez no mundo externo causam dor, e o bebê chora. Chora de dor, indignação, medo, pavor. Antes num lugar quentinho, escuro, confortável e de repente o trazem pra uma sala com luz branca incandescente extremamente cafona, cheia de gente estranha, e uma mulher destruída, deitada na cama com as pernas em forma de V é o único cheiro que ele reconhece, ela tem dor também, ela o reconhece.
É inevitável pensar que vida e dor estão intimamente ligadas. Por quem dá e por quem recebe.
E viver dói tanto que um tapa na bunda passa batido. Respirar dói mais.
E é isso que o bebê deve contar pra mãe quando ela o recebe nos braços quentinhos, um corpinho frágil dizendo que algo dentro dele doeu, mas agora está tudo bem. Eles estão juntos.
E desde o primeiro dia foi assim, até hoje, chegando finalmente aos meus 28 anos, com pulmões saudáveis, minhas dores transitam por outras partes do corpo.
Ainda tenho vontade de gritar e sair correndo para os braços da minha mãe, mas evito.
Lido com tudo aqui, do meu jeito, mas lido.
Às vezes é a cabeça que dói, o trânsito de pensamentos aqui dentro é um pouco caótico. Sou noturna. Às vezes até meus sonhos me cansam. São conversas, conclusões, viagens, brigas, reencontros, tudo que meu subconsciente traz à tona quando o que eu mais queria era descansar.
E às vezes são as dores da alma, do coração, chame como quiser. Sinto e sinto tanto, que talvez esse sentir me faça lembrar vagamente a dor que nos aflige quando respiramos pela primeira vez.
E esse médico obstetra que eu não faço ideia de como se chama, foi tão importante para o meu nascimento, não mais do que minha mãe foi, é claro. Mas ele veio, fez o seu papel e sumiu.
E quantos já não sumiram da minha vida? E de quantas vidas eu também não sumi?
Calculei a importância de alguns amigos, ex algumas coisas, professores, chefes, colegas.
Foram importantes. Cumpriram seu papéis.
E sumiram.
Sumiram como o Allan que me jogou na calçada enquanto eu andava de patins aos 11 anos e um carro ia me atropelar.
– Te odeio, Allan! – eu gritei na hora.
Não tinha visto o carro vindo. Só o Allan viu.
É isso, talvez eu não tenha visto a importância de todos, talvez tenha me importado mais a dor de respirar. A dor de viver. E depois um abraço quente que sempre chega, e é só isso que eu quero agora. Um abraço quente.

Eu sou um livro

 

015 Meu corpo tem marcas.
Nos dedos das mãos, nos joelhos, na barriga, tenho cicatrizes que contam histórias.
Eu leio essas histórias toda vez que fico nua.
Não me envergonho das linhas que preenchem minhas coxas nem dos furinhos que denunciam meu apetite por tudo que é doce.
A vida tem escrito em relevo na minha pele uma parte de tudo que vivo. A outra parte está dentro de mim, e vem à tona com cheiros, com a lágrima derramada no banho, na batida do coração que acelera quando descubro de novo o amor, e no coração que parte quando esse amor se vai.
Eu sou um livro por dentro e por fora, e tudo aqui é história, é romance, drama, comédia, e tudo que ainda está por vir é inédito. Me folheie com cuidado, me leia, ria comigo e de mim, mas não subestime nenhuma linha que tocar. Essa história é só minha.