As aulinhas de inglês

Foram alguns anos no curso de inglês ouvindo repetidamente esta frase “improve yourself”,a voz que dizia isso era a mesma voz que anuncia as estações do metrô da linha amarela ~in english~.

Tentei ser melhor no inglês. Troquei ideia com gringo via Skype, fazia as lições, às vezes com certa má vontade, mas fazia. Comparecia às aulas, faltei algumas vezes, mas marcava a reposição e comparecia. Improve yourself.

Meu grafite 0.7 sempre fortemente marcado deixava hieróglifos nas folhas corrigidas. Improve yourself. Ouvia uma palavra. Entendia outra. Ouvia de novo, não fazia sentido, aumentava o som, entendia um pouco, apertava os olhos e voltava pro começo, aquela luz branca da compreensão se acendia em alguma parte do meu cérebro e eu descobria que minha música favorita era na verdade uma grande porcaria. Que decepção. Improve yourself.

E eu falava pra mim: Ouça, ouça mais uma vez. Fale em voz alta, escreva, repita. Não se apegue a uma palavra. Entenda o contexto. My bed e my bad por exemplo, um pode ser um convite o outro é um pedido de desculpas. Contexto, entenda a ideia geral. Respire.
Eu achei que não conseguiria, na verdade eu achei que conseguiria, só não sabia como conseguiria. Falar com gente estranha em outra língua, dizer como me sinto, perguntar como a pessoa se sente e entender. Ri de uma piada, entendi tudo errado e descobri isso assim que a pessoa me explicou em outras palavras o verdadeiro significado. Improve yourself.
Não, eu não sou fluente. Talvez nunca seja.
Mas eu só tava aqui pensando que a vida é meio parecida com o tempo no curso de inglês.
É novidade o tempo todo. É o medo de errar, medo de entender tudo errado, medo de fazer tudo errado, é o medo do julgamento e mesmo assim dar a cara a tapa.

E é essencialmente errar querendo acertar. E acertar, por que não?

A vida tem os dias de má vontade também, tem horas que a gente não tem outra escolha a não ser viver, e é por isso que tem dias que eu levanto da cama, tomo um banho visto uma roupa que eu gosto e toco o modo improve yourself e repito até anoitecer, e o dia seguinte pode ser melhor. Ou não. E tá tudo bem.
Na vida, assim como no curso de inglês, tem um monte de gente tão perdida quanto a gente e mesmo assim nos intimidam. E talvez nos intimidam porque eles se sentem perdidos também, é defesa. E tem aqueles que já dominam o assunto, que dançam com a experiência e que com toda a generosidade do mundo nos estendem a mão, gente tipo aquele gringo nativo que te explica com calma o que parecia complicado e na verdade é muito simples. A cup of tea, please.
E eu sigo assim, entre dias bons e ruins, fantásticos e neutros, procurando fazer o melhor, e mesmo assim pode ser que nem no inglês e nem na vida eu me torne uma especialista fluente, a única garantia é que… Não tem garantia nenhuma. Improve yourself.