Ficou saudade

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Tela “Saudade” de Almeida Júnior (1899)

O tempo tem seu próprio jeito de arrumar as coisas
Eu quis acelerar, quis fazer do meu jeito
Quis correr pra ver se te encontrava
Quis fazer com que ele parasse pra que ele nunca te levasse daqui
Mas você sabe, eu sei
O tempo não é meu, o tempo não é seu
Ele está aqui sobre nós
E ele leva o que tem que levar
E a tudo que ele deixa aqui eu só posso dar um nome
E o nome mais correto agora seria saudade
O tempo te levou e deixou saudade

Nossos caminhos

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Todos os caminhos são incertos.
Nenhuma escolha é garantida.
O que podemos fazer é caminhar assim mesmo, e parar de vez em quando para sentir o cheiro das flores, ver o sol indo embora enquanto o céu muda gradualmente de cor, e de repente, de uma só vez, a escuridão toma conta de tudo. Não podemos esquecer que haverá um novo dia, com um novo nascer do sol, que é tão lindo quanto o pôr do sol.
Continuar neste caminho, apesar de tudo, ainda é o melhor que podemos fazer.

Meu jardim

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Eu não menti quando disse que te perdoei.
Eu realmente perdoei, do fundo do meu coração.
Eu te perdoei por não ter me tratado com carinho, por não ter me dado amor, te perdoei por ter negligenciado qualquer que fosse minha necessidade.
Perdoei os passeios onde não existiram mãos dadas e os passeios que não existiram.
Perdoei as datas que passaram em branco e o livro sem embrulho que foi presente de Natal.
Perdoei as mentiras, os atrasos, as ausências, as faltas.
Esqueci as músicas que só eram minhas e nunca foram nossas, eu apaguei da memória aquele álbum de fotos que nunca tivemos e as viagens que não passaram de promessas.
Fiz de conta que amar era só entrega, e aceitei não receber nada em troca.
Fui murchando, guardando tudo só pra mim cada vez que eu entendia que quanto mais eu entregava menos eu tinha.
E me diz, eu não merecia?
Eu comecei a achar que não merecia.
Te perdoei por fazer com que eu me sentisse tão sozinha.
Sim, eu perdoei.
E desejei do fundo do coração que você fosse feliz, que encontrasse alguém que te fizesse amar tanto quanto eu amei você.
E desejei que esse alguém fizesse você florescer, como eu era toda florida quando te conheci.
Hoje minha única promessa de perdão é pra mim.
Eu ainda não me perdoei.
São tantos caquinhos, são tantas pétalas que caíram.
Minha mãe tem uma Flor de Maio, ela nunca floresce em maio, que é quando todos esperam, esse ano foi só em julho.
Mas floresceu.
E talvez comigo seja assim, talvez eu volte a florescer, mesmo quando não parecer mais o tempo certo, mesmo quando ninguém mais esperar pra ver, até quando eu deixar de esperar, talvez…
Vou florir de novo, vou ser um jardim, e sabe, isso não tem nada a ver com você. É só sobre mim.

Memórias

Talvez você se lembre de mim

Quando as mãos dela tocarem seu corpo

Como as minhas mãos faziam

Ou quando morta de desejo

Ela mordiscar seu queixo e sentir assim o cheiro doce da nudez dela,

O cheiro que lembrará o meu, o beijo que se parece com o meu, o cabelo liso e claro espalhado sobre o seu peito, te lembrando os cachos escuros onde seus dedos se emaranhavam, e você vai lembrar que era assim que nossos dedos se enroscavam e eu arrancava de você os últimos suspiros da noite

A mesma noite que agora embala vocês dois, e não nós.

E talvez por isso você se lembre

Porque a moça ao seu lado não tem nada de mim.

Das pequenas coisas

Amor não se procura

Amor não se acha

Amor se faz

Com os olhos

Com os abraços

Com os beijos de bom dia

Com o dia a dia

Com o silêncio a dois

Com os lençóis bagunçados e limpos pelo sexo apaixonado

Com blues tocando no quarto

Amor se faz com os detalhes que a gente quase não vê, mas sente e sente de pouquinho em pouquinho

Por que é assim que o amor vem, bem devagarinho

O café e a paixão

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O cheiro do café chega quente aos pulmões, e esse cheiro quente que se transforma em calor, me faz lembrar de uma manhã de sexta-feira num quarto que ficava no 7º andar. Um quarto com janelas grandes, onde a decoração era feita por roupas espalhadas pelo chão, e das vidraças era possível ver um pedaço do céu por entre outros prédios.
O cheiro de café às vezes me transporta para um lugar no passado que me aqueceu. Foi um beijo, um abraço, um café e o pão de queijo, tudo igualmente quente. O café que me leva de volta para a Alameda Lorena é o café que vai um dia me levar para outro lugar, e só espero que seja quente, espero que tenha calor.

O que fazer com o tempo

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De vez em quando faça algo que você queira fazer, perca tempo com algo que você ama e que faça seus olhos brilharem.
A gente já passa mais de 8 horas por dia vendendo nosso tempo pra fazer coisas que temos que fazer, e essas horas entram no automático, e a gente esquece até do que gosta.
Por isso, perca tempo, jogue ele pela janela de vez em quando, mas só se for por amor.

Se for pra sentir, que seja tudo

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Eu poderia contar quantas vezes meu coração foi partido.
Poderia ilustrar quantas vezes eu chorei no caminho de volta pra casa.
Eu poderia até te dizer quantas vezes me faltou o ar enquanto o peito apertava.

Mas isso apenas esconderia todas as coisas lindas que vieram antes da dor.
Cada coração partido quase explodiu de felicidade em incontáveis momentos.
Cada lágrima de tristeza já foi de alegria enquanto eu ria como nunca.
O ar sumia dos meus pulmões enquanto tudo ao meu redor era prazer, lembrando do que Shakespeare diz a respeito, era como deixar a vida e voltar ao corpo em segundos.

A verdade é que existe uma dualidade.
As historias que começam, um dia terminam. E todas elas são histórias.
Há amor, cumplicidade, amizade, tantos bons momentos. E acaba, dói, machuca, o sentimento não sai do peito sem rasgar.
E por tantas vezes achei que não voltaria inteira. Como o pra sempre que a gente insiste em acreditar que existe, há também o nunca mais que é outra ilusão.
Me olhei no espelho e jurei que nunca mais me apaixonaria, nunca mais permitiria que isso acontecesse de novo.

E sabe o que acontece? Me vejo chorando de rir de novo em uma conversa boba, observo todos os pigmentos coloridos da Iris que pertence a uma pessoa só no mundo, conto as pintas que pontilham as costas nuas, e os fios de cabelo desalinhados que se ajeitam nas minhas mãos, gravo na memória a música que toca no quarto, e entendo finalmente que o pra sempre não existe, muito menos o nunca mais. O nunca mais existe menos ainda, a única coisa que realmente existe é o agora, e o agora me faz perceber que não importa o que acontecer com o meu coração, ele se recupera, ele volta mais forte, mais amoroso, mais feito de mim e das histórias que eu vivi. Ele é feito de dor, mas também é feito de amor.

Tempo

Queria poder parar o tempo, congelar tudo ao meu redor.

Queria retirar de cena toda a dor, toda a mágoa, queria colocar cor em tudo que é sem graça e triste.
Se eu pudesse eu pararia o tempo e mexeria nos ponteiros, escolheria o momento certo, o dia perfeito que eu deixei passar e recomeçaria.
E passaria.
Passaria reto pelas escolhas erradas, acertaria mais de uma vez.
Eu queria poder parar o tempo pra ter mais tempo pra pensar e descobrir o que fazer com o tempo que insiste em passar.