Sobre o Amor Líquido que eu nem li

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Existem coisas pequenas, coisas bobas como abrir a lata de creme de leite, conseguir tirar a rolha da garrafa de vinho e fechar o zíper do meu vestido sozinha, que me mostram quão bem eu consigo me virar sem precisar de ninguém.
E eu me viro mesmo.
Me levo para almoçar nos meus restaurantes favoritos, se tem um filme no cinema que eu quero muito ver, eu vejo. Pago minhas contas, de vez em quando passo meu batom vermelho e adoro meu cabelo curto.

É verdade quando digo que não preciso de ninguém, mas seria bom ter com quem contar. Sabe aquele número na agenda que seria o primeiro que você discaria pra contar algo importante ou só pra ter o prazer de ouvir uma voz de alguém muito importante pra você? Isso eu queria.
Não sei se é algo com a minha geração, se é culpa da internet ou se Bauman previu tudo isso no livro Amor Líquido, um livro que eu nem li, mas o que eu vejo é que as pessoas que tenho encontrado por aí, são como aquelas visitas que ficam paradas na nossa porta, mas que não querem entrar. E a gente troca ali uma dúzia de palavras, sorrisos, histórias superficiais, nos despedimos e até mais ver.

Ninguém quer o peso da bagagem do outro. Talvez estejamos tão feridos que não haja mais energia para dividir nada além da cama numa quinta-feira à noite.
Feridos, desacreditados, uma geração de solitários com mais de centenas de seguidores nas redes sociais. Nossas relações quase desaparecem em 24 horas como os stories no Instagram. Torcemos para um dia nos tornarmos destaques.

No fim de tudo, ainda acho que está tudo bem. Também me considero ferida e desacreditada, mas faz parte. Só espero que se algum dia eu for pega de surpresa, e toda essa história de amor líquido escorrer pelo ralo, que eu continue fechando o zíper do meu vestido sozinha, que eu ainda abra a lata de creme de leite e tire a rolha da garrafa de vinho, que eu pague minhas contas e ainda frequente os restaurantes que eu amo. Porque ainda se trata, não da necessidade de ter alguém pra dividir, mas sobre ter alguém pra somar. Quem é você se virando sozinho? É importante descobrir o que há de melhor em nós como indivíduos, pra depois, quem sabe, dar as mãos pra alguém incrível. E o resto? O resto a gente vê. Não tenho respostas, só perguntas e mais perguntas.