Caí no Aranhaverso

Algumas coincidências são coincidências demais pra gente simplesmente ignorar.

Vivo de fases. Umas muito boas, outras muito ruins, mais magra, mais gorda. Por aí vai.
Tô num momento muito estranho, me questionando o tempo todo sobre o que eu estou fazendo com a minha vida. E olha, tenho me sentido muito só. E tem sido difícil.
E isso não é algo que se resolve com um match no Tinder. Vai além. Mas é papo pra outra hora.
Decidi sair, arejar. Ir ao cinema já que faz tempo que não vou e eu gosto muito.
Me atrasei pra sessão que eu queria ver, mas que não queria muito porque disseram que o final do filme era ruim. Acabou que cheguei no horário certinho de Homem-Aranha no Aranhaverso. Fui nesse.
Já no caixa, escolhendo o lugar, escolhi a fileira F, assento 16. O assento 15 estava cinza, sinalizando que a cadeira devia ter problemas. O número 16, ali na fileira F, esperava alguém que estivesse sozinho. Pois bem. Era meu lugar.
Na sala, algumas crianças, alguns casais de jovens nerds e eu com meu cabelo rebelde.
O filme começou, uma animação muito foda da qual vocês já devem ter ouvido falar.
Um Homem-Aranha negro, numa escola elitista, com problemas na família, cheio de cobranças, colando adesivos onde se lia No expectations por aí, deslocadíssimo.
Muito gente boa.
Muito talentoso.
Parece loucura, não fizeram o filme pensando em mim. Esses caras nem sabem que eu existo.
E o filme nem se trata disso, mas existem algumas coisas que se encaixam no seu tempo, no seu momento, no seu lugar, não importa sobre o que seja.
O tempo todo foi como se o filme conversasse comigo, cada frase, cada momento.
Eu sei lá, só sei que saí de lá bem feliz, com a certeza de que não estou sozinha.
E se você também se sente assim às vezes, eu também quero que você acredite que você não está só, e que a roupa vai te servir, é só questão de tempo.
Achei essa fala, saída de um Stan Lee animado, simplesmente genial.
Era isso.
Com o tempo tudo fica bem.

Passarinhos tristes também cantam

art-bird-birds-black-blue-Favim.com-338459

Ela acorda todas manhãs com uma música tocando em sua mente.
Naquela manhã de domingo nenhuma música tocou.
Ela acordou no mais profundo silêncio.
Da janela ela pôde ver o sol entre as nuvens, as árvores com folhas tão verdinhas mostravam que um vento fraquinho soprava lá fora.
Passarinhos cantavam um canto triste, o tipo de canção que se aprende numa gaiola, e isso fez com que os olhos dela se enchessem de lágrimas – passarinhos tristes também cantam.
Os pés descalços no chão frio e claro fizeram ela se lembrar de como a solidão se faz notar.
Passo a passo, do quarto pro corredor, do corredor pra sala, da sala pro quintal, de barriga e mente vazias, ela se deixou levar pelo canto dos pássaros tristes, e pelos pássaros engaiolados ela se permitiu voar, sem dizer nenhuma palavra, sem nem ao menos cantar.