Alarme: 7h00

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Todo dia, à espera de uma surpresa, ela fazia tudo igual.
Acordava às 7h, tomava um café puro e comia o que estivesse disponível.
Ouvia música enquanto tomava banho, cantava no chuveiro. Às vezes, ainda molhada, se olhava no espelho e se achava bonita, outras vezes ela nem queria se ver.
O caminho para o trabalho era um tempo precioso que ela usava para ler livros e ouvir música. Sempre histórias de amor, aventura, diversão, sobretudo sobre amor. Mas sempre histórias alheias, de outros personagens, de outros tempos, de uma vida que não era dela.
E como ela havia desistido, com o tempo, deixou de esperar. E assim ela já não se lembrava que surpresas só acontecem assim, quando não se espera.

O que fazer com o tempo

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De vez em quando faça algo que você queira fazer, perca tempo com algo que você ama e que faça seus olhos brilharem.
A gente já passa mais de 8 horas por dia vendendo nosso tempo pra fazer coisas que temos que fazer, e essas horas entram no automático, e a gente esquece até do que gosta.
Por isso, perca tempo, jogue ele pela janela de vez em quando, mas só se for por amor.

Rotina e música

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São 7 horas da manhã, o calor queima a sola dos meus pés e nada me faz ter vontade de levantar. O despertador já não toca há meses porque meu corpo já possui seu próprio despertar.
Ao meu lado a gata dorme bem preguiçosa.
No celular a tela promete que vou me atrasar, mais 5 minutos, meia hora, que seja. Não quero me levantar. Os latidos da Chica ecoam no quarto. Algum vizinho na rua deve ter mexido com ela, saco.
Pulo da cama sem vontade. Estou usando a velha camisola de algodão que já viu dias melhores, sem dúvida, mas é tão confortável quanto é desgastada.

Minha gata se anima e salta da cama correndo em direção a cozinha, a barriguinha balança de um lado para outro, alternando entre os passos acelerados. Um grande pedaço de carvão correndo pela casa, a Pretinha. Um carvãozinho.

Coloquei Crazy da Patsy Cline para tocar enquanto a água do chá fervia. Erva Cidreira. Essa música me faz pensar nos amores que tive, tão poucos. Os amores que me deixaram louca, que doeram, que preencheram o lado esquerdo da minha cama, agora ocupado pela minha gatinha preta. A água ferveu, a música acabou. O lugar vazio na cama continua vazio.

A porcelana da caneca fica quente assim que coloco o chá, isso é o que chamo de refeição, pelo menos por agora que não tenho fome nem vontade.

No banho a música ainda me acompanha. Etta James, consigo te ouvir cantando da cozinha. Fecho os olhos e canto junto “Oh, all I could do, all I could do was cry, I was losing the man that I loved… hmmm”
Ninguém está nos ouvindo, Etta James, ninguém.

Quando abro os olhos, outros olhos estão me encarando, olhos amarelos de uma gata que julga a solidão de sua dona.

O banho morno deixa uma sensação boa no corpo, é como um abraço desejado. Alivia a dor. No guarda-roupa as velhas roupas com velhas histórias. Novos vestidos sem história alguma. Escolho o vestido preto larguinho, virgem, sem medos, sem lembranças.

Pinto os olhos e a boca. Meu cabelo está verdadeiramente bonito. Pego a bolsa, enfio os pés num par de sapatos clarinhos. Me despeço da gata, da caneca que agora é só uma porcelana fria, da Chica e da casa. Tranco o portão, o céu está azul, sem nuvens, talvez hoje seja um bom dia, talvez hoje, e só por hoje, levantar da cama tenha sido a melhor escolha.