Se for pra sentir, que seja tudo

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Eu poderia contar quantas vezes meu coração foi partido.
Poderia ilustrar quantas vezes eu chorei no caminho de volta pra casa.
Eu poderia até te dizer quantas vezes me faltou o ar enquanto o peito apertava.

Mas isso apenas esconderia todas as coisas lindas que vieram antes da dor.
Cada coração partido quase explodiu de felicidade em incontáveis momentos.
Cada lágrima de tristeza já foi de alegria enquanto eu ria como nunca.
O ar sumia dos meus pulmões enquanto tudo ao meu redor era prazer, lembrando do que Shakespeare diz a respeito, era como deixar a vida e voltar ao corpo em segundos.

A verdade é que existe uma dualidade.
As historias que começam, um dia terminam. E todas elas são histórias.
Há amor, cumplicidade, amizade, tantos bons momentos. E acaba, dói, machuca, o sentimento não sai do peito sem rasgar.
E por tantas vezes achei que não voltaria inteira. Como o pra sempre que a gente insiste em acreditar que existe, há também o nunca mais que é outra ilusão.
Me olhei no espelho e jurei que nunca mais me apaixonaria, nunca mais permitiria que isso acontecesse de novo.

E sabe o que acontece? Me vejo chorando de rir de novo em uma conversa boba, observo todos os pigmentos coloridos da Iris que pertence a uma pessoa só no mundo, conto as pintas que pontilham as costas nuas, e os fios de cabelo desalinhados que se ajeitam nas minhas mãos, gravo na memória a música que toca no quarto, e entendo finalmente que o pra sempre não existe, muito menos o nunca mais. O nunca mais existe menos ainda, a única coisa que realmente existe é o agora, e o agora me faz perceber que não importa o que acontecer com o meu coração, ele se recupera, ele volta mais forte, mais amoroso, mais feito de mim e das histórias que eu vivi. Ele é feito de dor, mas também é feito de amor.

Sobre a névoa

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De vez em quando meu quarto fica todo cinza. Uma névoa pesada enche o ambiente e eu não vejo mais razões para sorrir.

E essa névoa, essa cor cinza, é autoritária e não me permite abrir as janelas, não me deixa me vestir, não me permite ver o mundo lá fora, não me deixa falar com ninguém. Até que eu também fico cinza, me torno parte da névoa. Essa névoa faz meu corpo pesar uma tonelada.

E do mesmo jeito que a cor cinza invade meu quarto, ela também se vai, levando a névoa, e pouco a pouco sinto meu corpo ficando leve, abandonando correntes, âncoras, relaxando cada músculo. E a luz entra por entre frestas, e eu consigo ouvir música, abro a janela e a luz invade o quarto, aquece minha alma, e no meu peito sinto meu coração levitar.

A luz do dia no meu quarto também me lembra que a névoa vai voltar. Mas o que seria dessa luz sem os dias cinzas? Como eu saberia o que é levitar sem antes ter sentido o corpo pesando uma tonelada?