Cecília e portas abertas

Tamborilando os dedos na mesa ao ritmo da música Cecilia de Simon & Garfunkel, tan tan tan tantantã.
Ela já não sabe se o que tem no peito é um coração partido ou um coração refeito. De verdade, não sabe. Tamborilando sem parar, os pés também seguem o ritmo batendo com a bota pesada no chão.
Que confusão eles deixam quando se vão.
O pior é que eles nunca se vão por completo, sempre deixam a porta entreaberta e ela sempre odiou isso, saia e feche a porta, maldito, e apague a luz, por favor.
Ceciiiilia
De manhã fazia sol, por isso o vestido, mas tem chovido, por isso as botas. A controvérsia ambulante.
Da janela ela espera ver algum sinal, o fim do mundo começando, um paraquedista jurando amor eterno, qualquer coisa, nada acontece. O céu apenas escurece.
Suspira com dor.
O que isso significa? O peito apertado, a respiração rarefeita, a imagem que se repete na cabeça mil vezes sem parar? Um AVC e uma paixão não correspondida tem os mesmos sintomas, isso é uma certeza.
Ah senhor, jubilaaation.
A porta entreaberta é irritante, ela queria gritar no meio da avenida, gritar como uma louca. A sanidade mata as pessoas, estar são o tempo todo consome energia demais.
A Cecília era uma cretina, você já ouviu essa música? Ela perguntaria isso a alguém, se existisse alguém. E o cara era um tolo prestes a ter um AVC, assim são as pessoas que odeiam portas entreabertas, elas adoecem.
Feche a porta ela diz pra si mesma. Feche a porta, levante, feche a porta, feche a maldita porta, garota. Você pode.
Tan tan tan tantantã
E no meio do surto psicótico quase no final da música, alguém repousa a mão nas costas dela, o que faz com que ela saia do transe e se vire quase que em câmera lenta, um par de olhos escuros e gentis guardados num rosto do ano passado lhe observam com carinho e a palavra mais doce do mundo foi entregue a ela como um folha que cai de uma árvore no outono.
Oi!
Malditas portas abertas!!!! É por elas que eles entram.

Uma sessão por semana

4-Os-Excêntricos-Tenenbaums-2001

Johnny, eu queria te falar que não tenho nada do que reclamar.
Que a vida é uma experiência psicodélica de gratidão sem fim, que eu beijo unicórnios todas as noites e que o ar que eu respiro tem as cores do arco-íris.
Mas não é bem assim, e seria pra você, Johnny? Eu duvido que seria.
Mas não é sobre você, é sobre mim, certo?
Então, vamos lá.
Eu acordo todas as manhãs sem despertador porque o despertador sempre me deixou enfurecida, sendo assim, me programo pra acordar. Tem funcionado há anos, não pretendo mudar.
Tomo café preto, às vezes tão sonolenta que nem sinto que estou tomando, não gosto de café, de vez em quando troco por suco de laranja, não faço chá, não tenho paciência de esperar pela manhã a água ferver, esperar o chá entrar em fusão, esperar esfriar, e aí tomar o chá, mas prefiro chá, olha que coisa. Chá de erva-doce, chá de erva-cidreira.
Eu gosto de tomar banho de manhã, e ouvir música, gosto da música num som suficientemente alto para que eu possa ouvir por toda a casa, só eu, a música e minha gata em passos lentos, do quarto para a cozinha, da cozinha para o banheiro e do banheiro para o quarto.
E eu falo sozinha, imagino conversas que nunca acontecerão, e torço pra que elas aconteçam de um jeito meio apaixonado eu diria, mas tudo bem se não acontecer. A vida é um susto quase o tempo inteiro. A gente planeja, inventa rotas, e sai tudo diferente, nada é como esperado, até esse momento, você não acha? Eu aqui, falando sem parar, te contando coisas que não farão a menor diferença pra você.
Eu gosto de ouvir músicas tristes, e não é porque eu sou uma pessoa triste, eu não sou. Acho que minha risada é uma das coisas mais alegres, sem dúvida, mas as músicas tristes me fazem pensar,  pensar é bom.
Tem noção do quanto eu já devo ter sido idiota, Johnny?
Eu tenho.
E fui idiota pra não ser idiota, aí é que mora a ironia.
A gente é besta.
De que adiantou me proteger de coisas que eu não fazia a menor ideia se aconteceriam, tava tudo na minha cabeça. Um amigo disse pra eu ficar tranquila, que eu ainda vou ter muita oportunidade pra ser idiota, que não fiz nada de grave até agora, mas sabe como é? É difícil olhar pra trás e me ver como naquela cena do Leonardo DiCaprio em que ele joga dinheiro de cima do Iate no filme O Lobo de Wall Street, eu não joguei dinheiro, mas joguei tanta coisa… Você já deve ter feito isso, você é humano, Johnny. Humanos tem essa coisa de errar achando que estão acertando.
Mas é isso, não é? Tá tudo bem, é o que você vai me dizer, que está tudo bem.
E eu sou tão boba, mas tão boba, que eu acredito, e te entrego meu sorriso mais largo, porque apesar da vida não ser feita de unicórnios e arco-íris, ela é boa, é muito boa, Johnny. E olha que eu tenho chorado um tanto, e mesmo assim, acredito nisso.

Estrelas e rubis

Num lugar muito bonito e silencioso pude ver a noite chegar.
O céu foi tomado por um tom de azul tão escuro, tão denso. E as estrelas eram todas vermelhas, um vermelho vibrante, nunca tinha visto algo assim.
Estrelas enormes, eram da cor de rubi.
Senti medo. Quis fechar os olhos. Quis voltar pra casa. Quis me esconder.
Alguma voz atrás de mim me disse, não tenha medo, não há o que temer. Aprecie, é lindo.
E o medo se foi.
Senti meu corpo relaxando, e observei com carinho todo aquele céu, e era realmente lindo, uma das coisas mais lindas que eu já vi. E de tanto olhar, me senti parte dele.
Acordei.
Foi um sonho.
Foi só um sonho.
Fiquei pensando, algumas coisas são tão lindas, e eu ainda tenho medo, que bobagem. Meu Deus, que bobagem é o medo.

Noites quentes e chuva

O som da chuva caindo pesada lá fora invade meu quarto.
Presto atenção na água que corre pela calha, nas gotas respingando nas poças, o vento que muda a direção da chuva.
O som que vem lá de fora me lembra o som da sopa fervendo na panela numa noite fria dos anos 90.
A sopa quente aquecia o corpo, a sopa quente feita pela minha mãe aquecia também o coração.
Hoje a noite não está fria, o calor vem até castigando.
A chuva orquestrada, pesada e tão sonora me lembra que mesmo em noites quentes eu não posso esquecer de aquecer meu coração.

SP: Feios, apressados, atrasados e sem amor

São Paulo tem um lado frio e cinza, é aquele lado que motiva o Criolo a falar que aqui não tem amor. Ele não tá de todo errado não.
A gente tem pressa, a gente tá atrasado o tempo todo, a gente se esbarra, a gente fica puto com o povo parado do lado esquerdo na escada rolante, a gente quer passar. A gente nem olha pra cara dessa pessoa. “Caceta, olha esse embuste parado na escada”, aí bem de boas, amaldiçoando por dentro, a gente fala baixinho “licença…” E passa correndo.
Quem é que ama com pressa? Ninguém. Quem é que ama quando já passou da hora e só se pensa em chegar no destino, da forma que for?

Em São Paulo a gente corre e fica parado no mesmo lugar, e é cinza pra um lado, cinza pro outro. Não tem coisas bonitas pra ver na Marginal Pinheiros, e até a Marginal caiu. Cara, a Marginal caiu. E tá cheio de CET lá falando pra evitar a região, a gente queria era evitar a região todos os dias, porque é feio. E o que é feio faz todo mundo fazer uma cara feia também, porque além de feios, estamos atrasados. Ninguém quer saber de amor quando tá feio e atrasado.

Mas São Paulo sobrevive, porque até o feio, o atrasado e o apressado uma hora precisam parar, respirar e procurar um verde, um azul, um céu, um chão, um sorriso, e às vezes o apressado, o atrasado e o feio não param nem quando a cidade pede pelo amor de Deus pra ele parar. Aí vai o mundo, manda chover gatos e cachorros, e você continua correndo, e correndo você atravessa a rua e entra como um foguete na estação de metrô, e você esqueceu que tá na hora de parar, a vida te pára quando você se recusa a fazer isso. E foi assim que eu caí bem na estação Faria Lima, cai feito um meteoro, e tive uma crise de riso, um moço de cara feia, que tava puto com alguma coisa, me ajudou a levantar, e ele riu e já não tinha mais a cara feia, e todo mundo riu também porque a gente tava rindo, e num puta dia feio, a galera do meu vagão começou a rir também porque eu não parava de rir, tem horas que o amor em São Paulo chega em forma de tombo e vira riso.

Eu já devia ter me acostumado

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Cheguei neste mundo como muitos de vocês chegaram.
Deixei o corpo da minha mãe graças a uma cesárea realizada dentro de um hospital com nome de Santa. O médico que me tirou de dentro dela me deu um tapa, deve ter dado parabéns pra minha mãe enquanto fazia isso, “Uma bela menina você tem aqui”, plau! tapa no bumbum do bebê.
E sumiu.
Talvez tenha ido descansar depois do seu dever cumprido.
Não sei o nome dele. Nem ele sabe o meu. Já deve ter trazido mais de centenas de bebês pra essa cidade maluca que é São Paulo.
Uma única pessoa responsável por mostrar o mundo trágico, sarcástico, corrido, agitado, cruel, algumas vezes amoroso, tudo num único ato.
Dizem que o bebê não chora por conta do tapa. Ele chora porque respirar pela primeira vez dói. Os pulmões funcionando pela primeira vez no mundo externo causam dor, e o bebê chora. Chora de dor, indignação, medo, pavor. Antes num lugar quentinho, escuro, confortável e de repente o trazem pra uma sala com luz branca incandescente extremamente cafona, cheia de gente estranha, e uma mulher destruída, deitada na cama com as pernas em forma de V é o único cheiro que ele reconhece, ela tem dor também, ela o reconhece.
É inevitável pensar que vida e dor estão intimamente ligadas. Por quem dá e por quem recebe.
E viver dói tanto que um tapa na bunda passa batido. Respirar dói mais.
E é isso que o bebê deve contar pra mãe quando ela o recebe nos braços quentinhos, um corpinho frágil dizendo que algo dentro dele doeu, mas agora está tudo bem. Eles estão juntos.
E desde o primeiro dia foi assim, até hoje, chegando finalmente aos meus 28 anos, com pulmões saudáveis, minhas dores transitam por outras partes do corpo.
Ainda tenho vontade de gritar e sair correndo para os braços da minha mãe, mas evito.
Lido com tudo aqui, do meu jeito, mas lido.
Às vezes é a cabeça que dói, o trânsito de pensamentos aqui dentro é um pouco caótico. Sou noturna. Às vezes até meus sonhos me cansam. São conversas, conclusões, viagens, brigas, reencontros, tudo que meu subconsciente traz à tona quando o que eu mais queria era descansar.
E às vezes são as dores da alma, do coração, chame como quiser. Sinto e sinto tanto, que talvez esse sentir me faça lembrar vagamente a dor que nos aflige quando respiramos pela primeira vez.
E esse médico obstetra que eu não faço ideia de como se chama, foi tão importante para o meu nascimento, não mais do que minha mãe foi, é claro. Mas ele veio, fez o seu papel e sumiu.
E quantos já não sumiram da minha vida? E de quantas vidas eu também não sumi?
Calculei a importância de alguns amigos, ex algumas coisas, professores, chefes, colegas.
Foram importantes. Cumpriram seu papéis.
E sumiram.
Sumiram como o Allan que me jogou na calçada enquanto eu andava de patins aos 11 anos e um carro ia me atropelar.
– Te odeio, Allan! – eu gritei na hora.
Não tinha visto o carro vindo. Só o Allan viu.
É isso, talvez eu não tenha visto a importância de todos, talvez tenha me importado mais a dor de respirar. A dor de viver. E depois um abraço quente que sempre chega, e é só isso que eu quero agora. Um abraço quente.

Eu sou um livro

 

015 Meu corpo tem marcas.
Nos dedos das mãos, nos joelhos, na barriga, tenho cicatrizes que contam histórias.
Eu leio essas histórias toda vez que fico nua.
Não me envergonho das linhas que preenchem minhas coxas nem dos furinhos que denunciam meu apetite por tudo que é doce.
A vida tem escrito em relevo na minha pele uma parte de tudo que vivo. A outra parte está dentro de mim, e vem à tona com cheiros, com a lágrima derramada no banho, na batida do coração que acelera quando descubro de novo o amor, e no coração que parte quando esse amor se vai.
Eu sou um livro por dentro e por fora, e tudo aqui é história, é romance, drama, comédia, e tudo que ainda está por vir é inédito. Me folheie com cuidado, me leia, ria comigo e de mim, mas não subestime nenhuma linha que tocar. Essa história é só minha.