Diga o que for verdade

Dê o nome certo para as coisas. E quando falo de coisas, entenda que falo desses sentimentos e anseios que você tem.

Não chame de confusão o que na verdade é medo. Não chame de amor o que é desejo, não chame de paixão o que é tesão. Não que tenha algum problema em sentir uma coisa ou outra, mas trocar as palavras para chamar aquilo que na verdade não é, é expressar de forma completamente vazia e falsa um sentimento que sai de você, e sentimentos também merecem a verdade, assim como nós merecemos. Mesmo que doa, mesma que seja difícil, mesmo que seja frágil.

Manhãs e café puro

Na primeira hora da manhã, quando um de nós acorda antes do outro, é sempre nessa hora que eu sinto que isso vai acabar. Precisa acabar.

É essa grande diferença, esse abismo entre você e eu.
Queria que você morasse no meu silêncio e mergulhasse fundo no meu pensamento enquanto eu te observo levantar, escancarar a janela, calçar os chinelos e caminhar até a cozinha.
Eu fico aqui fazendo do edredom meu canto seguro, e fico pensando em tudo que eu poderia fazer exatamente agora. Queria fechar a janela, te trazer de volta para o único lugar onde não existe esse grande abismo entre você e eu.
Mas eu sou toda silêncio pela manhã. Eu sou toda pensamento. Você bate as portas, as gavetas, derruba copos e talheres, liga a máquina de café, abre a torneira, bate o pé. Você grita meu nome.

– Vem tomar café!

E é isso. É café puro. Sem açúcar. Eu vou, calada, porque não sei o que me acontece pela manhã. Você me olha nos olhos, finge deboche, mas eu sei que no fundo isso é uma dor. A dor de não saber. Na realidade… a dor de saber que nunca vai descobrir. É isso, não é? É isso que te dói. Não me entender, não conseguir enxergar o que eu já vi. Mas ainda é cedo demais, eu falaria, eu até falaria. Mas pela manhã eu prefiro o silêncio.
E é aqui que você me diz que dormiu com uma e acordou com outra. Queria te contar que sou a mesma pessoa, mas você não entenderia. Por isso te dou apenas meu silêncio.

Coragem

Eu posso ter medo. Ter medo não me fará deixar de enfrentar.

Eu posso tremer, eu posso até vacilar, mas ficarei em pé, queixo erguido, não é a primeira vez que olho nos olhos do monstro.

O medo não é opção, é imposição. Ele chega e se coloca na minha frente, ele vai me devorar, mas só se eu deixar.

Finjo, finjo até acreditar. Finjo minha coragem, fico em pé mesmo com medo. Olho firme mesmo com medo, bato a porta, tranco, grito, cresço, chamo todos os nomes. Transformo o medo. Crio coragem.

Penso nos felinos que dobram de tamanho, dobram de tamanho porque sentem medo, e o medo é a defesa, a defesa é o medo se transformado em coragem.

Eu sou uma mulher corajosa.

Minha alma jovem

Existe um grande cansaço de tudo que está ao redor.
É o som das obras que nunca acabam, a voz estridente de algum vizinho, ou sempre do mesmo vizinho. É o cansaço de olhar pela mesma janela de todos os dias e ver sempre a mesma paisagem com apenas uma árvore triste ao lado de um telhado cinza.
Existe este grande cansaço por não conseguir vislumbrar nada além da árvore triste e do telhado cinza.

As pessoas se tornaram essas telas com brilho em 60% para não cansar os olhos que já estão cansados. Não existe cheiro nem calor, mandamos beijos e abraços que nunca chegam, e que pena, que pena me dá mandar um abraço assim, solto no ar, preso no meu quarto, eu e meu abraço. Esse abraço que talvez, quem sabe, nunca vai chegar.

O cansaço, este a que me refiro, também se dá por essa insistência da minha alma ainda ingênua, que continua a acreditar em dias melhores, em pessoas que foram destinadas a cruzar um caminho e fazer dele uma rota mais bonita. Minha alma tem um brilho ainda jovem, tem força e coragem, é ela que ainda me faz dançar num quarto vazio, é ela que me faz deixar tocar uma música bonita, é por ter essa alma, que apesar da árvore triste e do telhado cinza eu ainda consigo sorrir, mesmo cansada, mesmo duvidando de vez em quando, aqui dentro ainda trilho um caminho sabendo que um dia a gente vai se encontrar.

Outra língua

Com esse seu jeito de falar, essas palavras diferentes que eu nunca soube direito o que significavam. Coisas boas, eu até pensava. E se não fossem coisas boas? Tanto faz. Te olhava assim meio desconfiada, pensava em perguntar. Não perguntava. Deixava pra lá, assim como você me deixava.

Eu também tinha minhas próprias palavras, e meu jeito de acordar em silêncio. Você barulhento, desperto, grande demais. Sempre grande demais. E quanto mais alto você falava, mais eu me recolhia. Deixa falar, eu pensava. E você, sem entender, me olhava como se eu precisasse de alguma coisa que você não pudesse dar.

Eu tinha minhas próprias palavras. Você tinha as suas. Apesar da angústia em não saber, nunca perguntei, porque talvez eu quisesse manter assim, quisesse que alguma parte sua continuasse escondida, inacessível, inexplorada por mim porque eu não te queria por completo e nem você queria a mim.

O poder da atração

Em julho eu iria para a Bahia.
Ia conhecer o Farol da Barra e dizer que estive em Salvador.

Antes disso eu ia ver o show do Rubel, que eu sempre quis ver desde que descobri quem era Rubel, e aprendi que se fala Rúbel e não Rubél. Melhor mesmo. Rubél me lembrava rubéola, mas preocupante mesmo é o corona.

Eu disse que ia ao cinema, os convites estão amassados na minha carteira. Todos vencidos. Queria ter ido sozinha e em par. Não fui.

Falei que em agosto ia fazer festa, porque nunca faço festa. Mas 30 é número redondo, é idade adulta, valia festa, valia despedida e boas vindas, era meu aniversário.

Prometemos nos ver, prometemos que qualquer dia desses, qualquer hora dessas, numa mesa de bar, num lugar legal, algo assim, porque é sempre assim.

E numa dessas noites de música e de gente que dança, me lembro de parar no tempo, sentar na calçada e desejar minha casa, pois meus pés doíam. Ainda tinha cheiro e cor de carnaval em Pinheiros. 

Há um tanto de coisa que eu ainda quero, tudo aqui guardado dentro de mim. Penso no poder da atração, penso em tudo que ainda não fiz, no que ainda não vivi. Penso nos corações, em todos os corações, penso nos abraços, eu penso e penso cada vez mais, penso até começar a acreditar que ainda poderei sentir algo bonito, doce, forte e colorido.

all I want is you

Acho que existe um nome maior pra tudo isso.
Dizer que é solidão ou que é saudade quando não é uma coisa nem outra seria inadequado.
E inadequada é uma palavra que me soa blasé, assim como acho blasé todo sentimento fingido.
No quarto escuto a voz de John Lennon cantando de forma sofrida as palavras all I want is you.
Não é blasé, e só não é porque é música e música está mais próxima de um sentimento verdadeiro do que qualquer fingimento.
Seja esse sentimento o de quem canta ou de quem escuta. Pra alguém acaba sendo sincero, assim como quem finge e espera que acreditem nele, e se alguém acredita, faz diferença ser blasé?

Me Perdi

Acho que me perdi na metade do caminho.

Metade do caminho é quase lá.

E onde fica esse lá? Ele me pergunta.

Eu saberia dizer se tivesse chegado. Eu teria o nome na ponta da língua e te diria que venci as duas metades do caminho. Bem onde uma termina e a outra começa.

Mas me perdi, e agora estou aqui me perguntando o mesmo que você:

Onde fica esse lá?

Faz um milênio

É uma data em uma fotografia. Junho de 2019. Foi só em junho de 2019, mas já faz tanto tempo, séculos, milênios. Faz pouco mais de um ano. Os anos engolem a gente, como buracos negros, e são assim os dias, os meses. Eles vão passando e a gente nem sente. As horas, que às vezes demoram, são meras atrizes desse espetáculo da urgência dos dias que vivemos. Essa lentidão dos passos que damos a cada escolha feita. Essa lentidão fingida, que finge ser demorada, quando tudo é veloz, feroz e passageiro como um furacão que leva o que tiver que levar e deixa o que tiver que ficar, do jeito que for, inteiro ou destruído, não importa. Foi em junho de 2019, faz pouco mais de um ano, parece um milênio. 

coisas assim

Tenho sentido uma vontade de fazer tanta coisa.
Queria ler em alta velocidade todos os livros que fico adiando.
Daí lembro que um livro é como alguém que você está destinado a conhecer.
Tem hora certa, jeito certo, momento certo pra acontecer.
Qualquer passo antes disso seria puro desperdício.

Tenho pensado em passos de dança.
Não sei dançar.
Lembro da última vez que dancei com alguém, lembro das risadas, do ritmo, dos tropeços e da música tão brasileira.
Lembro da alegria que tomou conta de mim e fez com que eu me esquecesse que não sei dançar, me deixei levar.

Quando foi a última vez que me deixei levar?

Penso também em todos os bilhetes que escrevi.
Bilhetes perdidos em livros, cartões cheios de coisas sentimentais.
Coisas que nem me lembro mais.
Meus bilhetes se tornaram fendas no tempo, tão perdidas quanto o próprio tempo.

Escreveria mais bilhetes e os perderia novamente.
Me perderia também, de novo e de novo.

Escuto mais uma vez Any Road, a canção do George Harrison.
O refrão saiu do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll.
Não seria ruim ser como Alice que atravessa espelhos e escuta quem nunca teve chance de ser ouvido.
Qual o problema em me sentir grande demais, ou pequena demais de vez em quando?
Tenho pensado em coisas assim.

assunto sem relevância

O que existe no silêncio que te assusta?
No silêncio ou no escuro, tanto faz.
O que te assusta?
No silêncio tem um barulho, aquele barulho que vem de dentro, vem da cabeça e do coração.
No silêncio tem solidão. A solidão te assusta?
A solidão é como um reflexo, um reflexo vivo que se vê na água. Com as pontas dos dedos úmidos e gelados você toca a superfície. O reflexo se desfaz.
O que você vê? Quem é você? A imagem desfeita na água, ou o corpo quente, inerte, amedrontado olhando para a água?
A solidão bagunça a gente.
Não que ela seja um problema, mas são essas perguntas, essas coisas que ela traz junto.
Essa coisa estranha que a gente sente quando está sozinho no escuro.
Se sentir sozinho, frágil, vulnerável.
Deram esse nome bonito, solitude. É a mesma moeda com dois lados.
A solitude poderia ser o reflexo bonito na água intocada.
A solidão é sua imagem desfeita tentando a todo custo se encontrar.
Uma é dor, a outra é arte.
Existe arte sem dor?

Coisas que penso na Quarentena

O problema não é a solidão
Como aquela música que diz “pega a solidão e dança”
Eu aprendi a dançar
O problema é não sair do lugar
É viver sempre o mesmo dia
E achar que vai ser pra sempre o mesmo dia
Com as mesmas paredes paralisadas
Comigo em frente ao espelho paralisada
Com a mesma tela de celular paralisada
E com medo
Medo de pegar corona
Medo que alguém pegue corona
Medo por si só já estraga
Estraga a esperança que eu preciso ter
E que você precisa ter
Pra acreditar que esses dias vão passar
E que virão novos dias
Com movimento, com chegadas e partidas
Que nada terão a ver com isso que agora paralisa
E impede movimento
E impede criação
E impede que eu veja além das minhas paredes
Aquilo que também te coloca em movimento

Behind That Locked Door
– George Harrison

Why are you still crying?
Your pain in now through
Please forget those teardrops,
Let me taken them from you
The love you are blessed with
This world’s waiting for
So let out your heart please, please
From behind that locked door
It’s time we start smiling,
What else should we do?
With only this short time,
I’m gonna be here with you
And the tales you have taught me,
From the things that you saw,
Makes me want out your heart, please, please
From behind that locked door
And if ever my love goes
If I’m rich or I’m poor,
Come and let out my heart, please, please
From behind that locked door

Eu tô falando sozinha

Dois livros que li esse ano e que  guardei no coração: Todas as crônicas da Clarice Lispector e Crônicas Volume 1 do Bob Dylan.
Além da escrita em crônica, a semelhança entre os dois está em ver beleza no simples, no comum, nas pequenas coisas.
Clarice era uma mulher que conversava com real interesse com pessoas do cotidiano. Ela conversava com os taxistas, e até quando estava de saco cheio e não queria papo, acabava ouvindo e prestando atenção no que eles tinham a dizer. Taxistas renderam lindas crônicas pra Clarice. Ela ouvia estudantes e percebia como o mundo havia mudado, escutava suas empregadas domésticas e escreveu sobre elas e suas histórias de amor.

No livro do Bob Dylan, ele conta sobre uma conversa que teve com um pequeno comerciante, essa é uma das minhas partes favoritas no livro. Em outro momento, ele conta que estava muito desanimado e perdido, pensando em largar – ou a turnê com o Tom Petty ou a gravação de um disco, não me lembro agora – quando ele entrou num bar onde músicos de jazz estavam se apresentando, músicos comuns. E enquanto ele observava como um dos músicos tocava, ele entendeu que poderia voltar a tocar se lembrasse como aquele músico estava tocando ali naquele bar. Encontrou inspiração num músico desconhecido.

Amo esses dois livros porque me encontrei um pouco nos dois. Os dois me lembram um poema de Mário Quintana chamado As Coisas. Vou deixar a parte final do poema aqui:

E deixa-me dizer-te em segredo

um dos grandes segredos do mundo:

— Essas coisas que parece

não terem beleza

nenhuma

— é simplesmente porque

não houve nunca quem lhes desse ao menos

um segundo

olhar!