Mais um dia no calendário

Tenho sentido falta dos momentos de troca.
Sinto falta de dar risada, de conversar, de sentir o cheiro de tudo, dos perfumes, das bebidas, dos lugares.
Sinto falta de, repentinamente, ser abraçada por algum amigo ou amiga.
Sinto falta das noites em que tive coragem e tirei os sapatos pra dançar.
Sinto falta dos olhares trocados, de ver a noite correr, sinto falta das luzes e dos prédios altos, cheios de janelinas com mais luzes ainda.
Que falta me faz viver.
Viver fora de mim, viver perto de alguém.

A Borboleta Amarela

Olha pela janela, ainda restam algumas árvores. O som das folhas ao vento rompem as barreiras e invadem nosso quarto.
Presta atenção, tudo tem som de saudade, tudo é canção.
Escuta o que digo, são sempre os detalhes, essas coisas tão pequenas e ligeiras como o riso no meio de uma conversa, ou como olhos que tentam escapar em vão de outros olhos espertos.
Pense em todas as coisas que não são ditas, essas coisas que a gente sabe que dispensam palavras.
Imagine uma borboleta cruzando seu caminho. Ela é linda e delicada, quase um par de pétalas que aprendeu a voar. A borboleta voa leve e apressada, num piscar de olhos você a perde de vista.
Quando fechar os olhos, meu bem, não deixe de ouvir o vento e as folhas. Quando ver uma borboleta, presete atenção, tantas coisas na vida são assim, como uma borboleta amarela e como folhas ao vento.

Aos meus caros espertos, dedico o meu cansaço

Já deve ter acontecido com você.
Você vai ao mercado, essa que não é uma das atividades mais gostosas do dia. Pega a fila do caixa com aquela cestinha pesando no braço. Você se pega olhando pra pilha de cervejas ao lado. Se perde pensando que queria levar um pacote delas, mas talvez você tenha bebido muito nos últimos dias, melhor dar um tempo. Nesses segundos de distração, algum esperto furou a fila e entrou na sua frente.
E você questiona sua sanidade mental:
“Será que essa pessoa estava aqui o tempo todo e só eu não vi?”
Pane no sistema.
Não, o infeliz furou a fila na maior cara de pau mesmo.
E talvez você deixe pra lá, porque existe um grande cansaço. Se o infeliz está com pressa, que o mundo dele acabe antes do seu.
Ah, mas isso irrita, não irrita?

Essas pessoas mais espertas, elas estão em todos os lugares. Na fila do caixa no mercado, no trânsito, no meio dos amigos nessas redes sociais, nos bares, nas praias, e a sorte delas é que existe esse grande cansaço. Eu até acho que foi esse tipo de gente que inspirou o roteiro do filme Um Dia de Fúria.

O resto é segredo

Acredito que ao ler os pensamentos íntimos de alguém, esses pensamentos que a pessoa permite exprimir por meio da escrita, não é possível saber quem é essa pessoa, mas sim quem ela já foi.

Só posso avaliar por mim, e quando escrevo sei que me despeço de partes de mim, de sentimentos, de dores, de saudades e se ainda não me despedi, escrevo como um convite para que se retire e ganhe liberdade aquilo que me aperta o peito. O resto é segredo, pois todos os temos.

Diga o que for verdade

Dê o nome certo para as coisas. E quando falo de coisas, entenda que falo desses sentimentos e anseios que você tem.

Não chame de confusão o que na verdade é medo. Não chame de amor o que é desejo, não chame de paixão o que é tesão. Não que tenha algum problema em sentir uma coisa ou outra, mas trocar as palavras para chamar aquilo que na verdade não é, é expressar de forma completamente vazia e falsa um sentimento que sai de você, e sentimentos também merecem a verdade, assim como nós merecemos. Mesmo que doa, mesma que seja difícil, mesmo que seja frágil.

Manhãs e café puro

Na primeira hora da manhã, quando um de nós acorda antes do outro, é sempre nessa hora que eu sinto que isso vai acabar. Precisa acabar.

É essa grande diferença, esse abismo entre você e eu.
Queria que você morasse no meu silêncio e mergulhasse fundo no meu pensamento enquanto eu te observo levantar, escancarar a janela, calçar os chinelos e caminhar até a cozinha.
Eu fico aqui fazendo do edredom meu canto seguro, e fico pensando em tudo que eu poderia fazer exatamente agora. Queria fechar a janela, te trazer de volta para o único lugar onde não existe esse grande abismo entre você e eu.
Mas eu sou toda silêncio pela manhã. Eu sou toda pensamento. Você bate as portas, as gavetas, derruba copos e talheres, liga a máquina de café, abre a torneira, bate o pé. Você grita meu nome.

– Vem tomar café!

E é isso. É café puro. Sem açúcar. Eu vou, calada, porque não sei o que me acontece pela manhã. Você me olha nos olhos, finge deboche, mas eu sei que no fundo isso é uma dor. A dor de não saber. Na realidade… a dor de saber que nunca vai descobrir. É isso, não é? É isso que te dói. Não me entender, não conseguir enxergar o que eu já vi. Mas ainda é cedo demais, eu falaria, eu até falaria. Mas pela manhã eu prefiro o silêncio.
E é aqui que você me diz que dormiu com uma e acordou com outra. Queria te contar que sou a mesma pessoa, mas você não entenderia. Por isso te dou apenas meu silêncio.

Coragem

Eu posso ter medo. Ter medo não me fará deixar de enfrentar.

Eu posso tremer, eu posso até vacilar, mas ficarei em pé, queixo erguido, não é a primeira vez que olho nos olhos do monstro.

O medo não é opção, é imposição. Ele chega e se coloca na minha frente, ele vai me devorar, mas só se eu deixar.

Finjo, finjo até acreditar. Finjo minha coragem, fico em pé mesmo com medo. Olho firme mesmo com medo, bato a porta, tranco, grito, cresço, chamo todos os nomes. Transformo o medo. Crio coragem.

Penso nos felinos que dobram de tamanho, dobram de tamanho porque sentem medo, e o medo é a defesa, a defesa é o medo se transformado em coragem.

Eu sou uma mulher corajosa.

A flor

Era uma flor amarela caída na calçada.
Uma única flor onde não se via árvores com flores amarelas.
Na calçada molhada pela chuva, no chão de concreto cinza, havia uma flor caída, era uma flor amarela.

Minha alma jovem

Existe um grande cansaço de tudo que está ao redor.
É o som das obras que nunca acabam, a voz estridente de algum vizinho, ou sempre do mesmo vizinho. É o cansaço de olhar pela mesma janela de todos os dias e ver sempre a mesma paisagem com apenas uma árvore triste ao lado de um telhado cinza.
Existe este grande cansaço por não conseguir vislumbrar nada além da árvore triste e do telhado cinza.

As pessoas se tornaram essas telas com brilho em 60% para não cansar os olhos que já estão cansados. Não existe cheiro nem calor, mandamos beijos e abraços que nunca chegam, e que pena, que pena me dá mandar um abraço assim, solto no ar, preso no meu quarto, eu e meu abraço. Esse abraço que talvez, quem sabe, nunca vai chegar.

O cansaço, este a que me refiro, também se dá por essa insistência da minha alma ainda ingênua, que continua a acreditar em dias melhores, em pessoas que foram destinadas a cruzar um caminho e fazer dele uma rota mais bonita. Minha alma tem um brilho ainda jovem, tem força e coragem, é ela que ainda me faz dançar num quarto vazio, é ela que me faz deixar tocar uma música bonita, é por ter essa alma, que apesar da árvore triste e do telhado cinza eu ainda consigo sorrir, mesmo cansada, mesmo duvidando de vez em quando, aqui dentro ainda trilho um caminho sabendo que um dia a gente vai se encontrar.

Outra língua

Com esse seu jeito de falar, essas palavras diferentes que eu nunca soube direito o que significavam. Coisas boas, eu até pensava. E se não fossem coisas boas? Tanto faz. Te olhava assim meio desconfiada, pensava em perguntar. Não perguntava. Deixava pra lá, assim como você me deixava.

Eu também tinha minhas próprias palavras, e meu jeito de acordar em silêncio. Você barulhento, desperto, grande demais. Sempre grande demais. E quanto mais alto você falava, mais eu me recolhia. Deixa falar, eu pensava. E você, sem entender, me olhava como se eu precisasse de alguma coisa que você não pudesse dar.

Eu tinha minhas próprias palavras. Você tinha as suas. Apesar da angústia em não saber, nunca perguntei, porque talvez eu quisesse manter assim, quisesse que alguma parte sua continuasse escondida, inacessível, inexplorada por mim porque eu não te queria por completo e nem você queria a mim.

O poder da atração

Em julho eu iria para a Bahia.
Ia conhecer o Farol da Barra e dizer que estive em Salvador.

Antes disso eu ia ver o show do Rubel, que eu sempre quis ver desde que descobri quem era Rubel, e aprendi que se fala Rúbel e não Rubél. Melhor mesmo. Rubél me lembrava rubéola, mas preocupante mesmo é o corona.

Eu disse que ia ao cinema, os convites estão amassados na minha carteira. Todos vencidos. Queria ter ido sozinha e em par. Não fui.

Falei que em agosto ia fazer festa, porque nunca faço festa. Mas 30 é número redondo, é idade adulta, valia festa, valia despedida e boas vindas, era meu aniversário.

Prometemos nos ver, prometemos que qualquer dia desses, qualquer hora dessas, numa mesa de bar, num lugar legal, algo assim, porque é sempre assim.

E numa dessas noites de música e de gente que dança, me lembro de parar no tempo, sentar na calçada e desejar minha casa, pois meus pés doíam. Ainda tinha cheiro e cor de carnaval em Pinheiros. 

Há um tanto de coisa que eu ainda quero, tudo aqui guardado dentro de mim. Penso no poder da atração, penso em tudo que ainda não fiz, no que ainda não vivi. Penso nos corações, em todos os corações, penso nos abraços, eu penso e penso cada vez mais, penso até começar a acreditar que ainda poderei sentir algo bonito, doce, forte e colorido.

all I want is you

Acho que existe um nome maior pra tudo isso.
Dizer que é solidão ou que é saudade quando não é uma coisa nem outra seria inadequado.
E inadequada é uma palavra que me soa blasé, assim como acho blasé todo sentimento fingido.
No quarto escuto a voz de John Lennon cantando de forma sofrida as palavras all I want is you.
Não é blasé, e só não é porque é música e música está mais próxima de um sentimento verdadeiro do que qualquer fingimento.
Seja esse sentimento o de quem canta ou de quem escuta. Pra alguém acaba sendo sincero, assim como quem finge e espera que acreditem nele, e se alguém acredita, faz diferença ser blasé?

Me Perdi

Acho que me perdi na metade do caminho.

Metade do caminho é quase lá.

E onde fica esse lá? Ele me pergunta.

Eu saberia dizer se tivesse chegado. Eu teria o nome na ponta da língua e te diria que venci as duas metades do caminho. Bem onde uma termina e a outra começa.

Mas me perdi, e agora estou aqui me perguntando o mesmo que você:

Onde fica esse lá?

Faz um milênio

É uma data em uma fotografia. Junho de 2019. Foi só em junho de 2019, mas já faz tanto tempo, séculos, milênios. Faz pouco mais de um ano. Os anos engolem a gente, como buracos negros, e são assim os dias, os meses. Eles vão passando e a gente nem sente. As horas, que às vezes demoram, são meras atrizes desse espetáculo da urgência dos dias que vivemos. Essa lentidão dos passos que damos a cada escolha feita. Essa lentidão fingida, que finge ser demorada, quando tudo é veloz, feroz e passageiro como um furacão que leva o que tiver que levar e deixa o que tiver que ficar, do jeito que for, inteiro ou destruído, não importa. Foi em junho de 2019, faz pouco mais de um ano, parece um milênio. 

coisas assim

Tenho sentido uma vontade de fazer tanta coisa.
Queria ler em alta velocidade todos os livros que fico adiando.
Daí lembro que um livro é como alguém que você está destinado a conhecer.
Tem hora certa, jeito certo, momento certo pra acontecer.
Qualquer passo antes disso seria puro desperdício.

Tenho pensado em passos de dança.
Não sei dançar.
Lembro da última vez que dancei com alguém, lembro das risadas, do ritmo, dos tropeços e da música tão brasileira.
Lembro da alegria que tomou conta de mim e fez com que eu me esquecesse que não sei dançar, me deixei levar.

Quando foi a última vez que me deixei levar?

Penso também em todos os bilhetes que escrevi.
Bilhetes perdidos em livros, cartões cheios de coisas sentimentais.
Coisas que nem me lembro mais.
Meus bilhetes se tornaram fendas no tempo, tão perdidas quanto o próprio tempo.

Escreveria mais bilhetes e os perderia novamente.
Me perderia também, de novo e de novo.

Escuto mais uma vez Any Road, a canção do George Harrison.
O refrão saiu do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll.
Não seria ruim ser como Alice que atravessa espelhos e escuta quem nunca teve chance de ser ouvido.
Qual o problema em me sentir grande demais, ou pequena demais de vez em quando?
Tenho pensado em coisas assim.

Foi algo que disse

Uma vez eu disse algo bem baixinho.

Tão baixinho que talvez nem tenha dito.

Soltei as palavras completamente sem som. Senti cada sílaba saindo de dentro de mim.

Formei o desenho do que disse, assim, com a boca.

Me despedi do que precisava dizer.

Às vezes é preciso dizer e às vezes ninguém precisa ouvir.

assunto sem relevância

O que existe no silêncio que te assusta?
No silêncio ou no escuro, tanto faz.
O que te assusta?
No silêncio tem um barulho, aquele barulho que vem de dentro, vem da cabeça e do coração.
No silêncio tem solidão. A solidão te assusta?
A solidão é como um reflexo, um reflexo vivo que se vê na água. Com as pontas dos dedos úmidos e gelados você toca a superfície. O reflexo se desfaz.
O que você vê? Quem é você? A imagem desfeita na água, ou o corpo quente, inerte, amedrontado olhando para a água?
A solidão bagunça a gente.
Não que ela seja um problema, mas são essas perguntas, essas coisas que ela traz junto.
Essa coisa estranha que a gente sente quando está sozinho no escuro.
Se sentir sozinho, frágil, vulnerável.
Deram esse nome bonito, solitude. É a mesma moeda com dois lados.
A solitude poderia ser o reflexo bonito na água intocada.
A solidão é sua imagem desfeita tentando a todo custo se encontrar.
Uma é dor, a outra é arte.
Existe arte sem dor?

Coisas que penso na Quarentena

O problema não é a solidão
Como aquela música que diz “pega a solidão e dança”
Eu aprendi a dançar
O problema é não sair do lugar
É viver sempre o mesmo dia
E achar que vai ser pra sempre o mesmo dia
Com as mesmas paredes paralisadas
Comigo em frente ao espelho paralisada
Com a mesma tela de celular paralisada
E com medo
Medo de pegar corona
Medo que alguém pegue corona
Medo por si só já estraga
Estraga a esperança que eu preciso ter
E que você precisa ter
Pra acreditar que esses dias vão passar
E que virão novos dias
Com movimento, com chegadas e partidas
Que nada terão a ver com isso que agora paralisa
E impede movimento
E impede criação
E impede que eu veja além das minhas paredes
Aquilo que também te coloca em movimento

Behind That Locked Door
– George Harrison

Why are you still crying?
Your pain in now through
Please forget those teardrops,
Let me taken them from you
The love you are blessed with
This world’s waiting for
So let out your heart please, please
From behind that locked door
It’s time we start smiling,
What else should we do?
With only this short time,
I’m gonna be here with you
And the tales you have taught me,
From the things that you saw,
Makes me want out your heart, please, please
From behind that locked door
And if ever my love goes
If I’m rich or I’m poor,
Come and let out my heart, please, please
From behind that locked door