Existe um despertar

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Existe um despertar.
Um relacionamento abusivo é como um sono profundo, e nesse sono profundo eu me sentia presa num pesadelo, que em alguns momentos parecia um sonho maravilhoso. É extremamente instável.
É um sono pesado que não é reparador.
Mas existe um despertar.

E é por isso que eu sou grata pelos dois relacionamentos abusivos que eu tive.
Ambos me ensinaram a urgência que eu tinha em aprender a me amar, a me aceitar. Ambos me colocaram na ponta da prancha, me fizeram saltar direto para o meu processo de autoconhecimento. Um processo longo e contínuo. Eu caí direto num vazio que tinha meu nome e sobrenome.

O que eu posso dizer é que tive sorte.
No momento em que eu achei que estava só, me afundando na escuridão, meus amigos esticaram suas mãos, me tiraram de lá a força. Todos eles esfregaram na minha cara a importância que eu tinha pra eles, e como era importante eu enxergar minha própria importância. Eu não saí dessa sozinha.

Reafirmei meu gosto musical, fiz maratonas de filmes em casa e no cinema, andei de bicicleta por quase todos os cantos da zona sul de São Paulo, fui a shows sozinha e acompanhada, fiz e tenho feito tudo que eu sempre tive vontade de fazer, me soltei das amarras, comecei a perceber que altruísmo é lindo, mas não no amor romântico, no que se trata de um casal, é necessário uma troca justa, é preciso amar e ser amado.
E mesmo numa situação casual, ambos precisam se sentir valorizados.

Hoje eu sou capaz de reconhecer meu valor.
Hoje eu consigo olhar pra mim e entender que existe uma mina incrível dentro desses olhos.
Hoje eu me amo o suficiente pra saber quando alguém me trata mal, quando não estão me dando o devido valor, hoje eu tenho a força que eu não tinha antes, a força que teria me feito levantar com dois pés firmes até a porta e dizer , “ok, vá à merda, não preciso disso”.

Então, se você acha que está num relacionamento abusivo, ou se você acabou de sair de um relacionamento assim, saiba que existe um despertar, e há algo lindo dentro de você. Você só precisa deixar isso sair, e não deixe que ninguém mais te tranque.

Hoje eu não sou mais quem eu era antes, e a menina que eu era com certeza tem um puta orgulho da mulher em que me transformei. E não há passos para trás, agora o caminho é pra frente, e a vida é maravilhosa demais pra ser feita só de histórias tristes.
Agora que eu me encontrei, eu não quero me perder nunca mais.

Aqui está o melhor conteúdo sobre o tema:

Meu relacionamento abusivo

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Como qualquer adolescente, eu achava que sabia muito sobre tudo, e hoje, com quase 28 anos, me dei conta de que não sei quase nada.
Aos 16 anos, tive meu primeiro relacionamento sério que durou 6 anos.
Eu era jovem, imatura, inteiramente entregue e apaixonada. Acreditava no Pra Sempre independente de qualquer coisa. Meu mundo era do tamanho de uma suíte, eu era o próprio mito da caverna.
Namorava um cara que era 8 anos mais velho, ele carregava uma bagagem extensa de relacionamentos anteriores, tinha um filho, carreira, ambição, e muitas outras garotas com quem ele ficava esporadicamente ao logo destes 6 anos em que esteve comigo, amigas do trabalho, vizinhas, a garota que estudou comigo na pré escola, entre outras. Não tenho raiva de nenhuma delas. A única pessoa que me devia respeito era ele, e eu me devia amor próprio. No sentido literal, nós éramos ótimos quando estávamos juntos. Tínhamos uma boa relação de troca, conversávamos, ríamos, nos dávamos bem, mas quando eu não estava por perto, era como se não namorássemos. Pelo menos pra ele.
Era cômico.
O relacionamento não era aberto, pelo menos não oficialmente (HAHAHA).
Por motivos muito mais profundos que seriam explicados apenas numa sala de psicoterapia, o pouco que ele me dava me parecia suficiente, eu acreditava que as migalhas do relacionamento eram o máximo que eu teria no mundo, lembre-se que meu mundo era do tamanho de uma suíte. A ingenuidade de uma jovem é surpreendente.
Por anos me conformei com o pouco e o quase nada. E me doei como ninguém, quanto menos eu recebia, mais eu me entregava, dizem que amor é altruísmo, e talvez tenha sido isso, uma relação onde eu precisava ser a altruísta.
E essa relação chegou ao fim.
Foi ele quem terminou comigo.
Meu pequeno mundo desmoronou. Eu não tinha referência nenhuma, não sabia nada sobre mim.
Minha única referência no mundo era ele.
Eu era como um filhote abandonado na rua, não precisaria de muito pra alguém conseguir me levar pra casa. E foi assim que eu passei de um relacionamento ruim pra um pior.
Nesse relacionamento tive tudo que eu não tive no anterior. Cinema, viagens, festas, presentes, anel de noivado.
E tive violência psicológica, tive alguém que me colocava pra baixo o tempo todo, que falava mal do meu corpo, que me pedia pra usar maquiagem, alguém que ignorava minha família e meus amigos, alguém que era rude comigo, que  não gostava de animal nenhum que não fosse o cachorro dele, que criticava meu gosto pra filmes, pra música, pra roupa, alguém que odiava conversar comigo, era a última pessoa pra quem eu ligaria pra conversar, e mesmo assim era meu namorado.Ele terminou comigo dentro do carro e finalizou com a frase: agora estou com pressa, preciso ficar com meu sobrinho.

Me lembro de entrar em casa me sentindo o pior dos lixos humanos.
Me senti extremamente sozinha.
Mas eu estava errada.
Meus amigos foram extremamente importantes nessa fase de renascimento.

E foi aqui que eu comecei a viver de verdade.
Consumi tudo que falava sobre relacionamentos abusivos, percebi como isso estava diretamente ligado ao fato de ter autoestima baixa, entendi que eu precisava desenvolver amor próprio. Fechei as duas portas desses relacionamentos que contei aqui em cima pra finalmente abrir a porta pra mim. E é aqui que começa uma nova história.

Meu Palco É Um Parapeito

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Merdas acontecem. Isso é fato.
O que define o estrago da merda é a sua reação quando ela acontece.
Normalmente eu surto. Pode me imaginar como aquele cara num parapeito de um prédio, com uma camisa horrível gritando que deu tudo errado que não vale mais a pena viver. São 5, 10, 15 minutos de surto que realmente não mereciam todo o estardalhaço. Ainda mais quando você está vestindo uma camisa horrível.
Meu Deus, o drama. Dizem que é coisa de leonino, ainda mais quando você é nascido no dia 04, a numerologia reforça este quadro dramático, mais ainda quando se é a irmã mais velha, e quando o amor por gatos felinos e gatos humanos é latente.
Enfim, a vida é uma loucura de altos e baixos, e não existem parapeitos suficientes para tantos “Chega Eu Não Aguento Mais”, porque no final, eu aguento. Sempre aguentei.
E se algum dia você me ver num parapeito de um prédio chique, me jogue uma camisa linda de grife, um batom Rubi Woo, posicione estrategicamente na janela mais próxima um moço de cabelos esvoaçantes tocando Blackbird do Paul McCartney no violão, chame os bombeiros, meus amigos e aquela menina imbecil da 3° Série que eu odiava (crianças odeiam, sim), quero uma cama elástica, quero alguém gritando We Are The Champions no meio da avenida, faça um cara loiro me pedir perdão por tudo, pode ser qualquer um, a licença poética permite. Faça um show. Entre na minha vibe, porque tanto você quanto eu sabemos que eu nunca saltaria dali.

Identidade

26 anos já é uma vida. Mesmo assim, muito ainda está por vir, assim espero.

Nessa jornada muito louca eu aprendi algumas coisas. A mais importante de todas é: Sei muito pouco.

Já é ótimo.

Há alguns anos eu achava que sabia muito. E achar que sabemos muito é uma merda.

Tomei consciência que estar perdido faz parte, a maioria de nós também está. Comecei a entender que algumas buscas devem ser feitas dentro de mim. Apesar de ser muito confortável ter alguém pra me guiar, e me levar de mãos dadas para o seu próprio mundo que eu tomava como meu, chegou a hora de deixar de ser a alienígena, e me encontrar no meu planeta mãe.  Entendi o quão importante é ter identidade. E ela é responsável por muitas coisas, como por exemplo, meu gosto por filmes, a forma como me expresso, como arrumo meu cabelo, meus amigos e as pessoas com quem converso. Tudo é um reflexo da minha própria identidade. 

Senti que um dia eu não conseguia mais me reconhecer, não conseguia me identificar. Olhava no espelho e não via mais nada de mim naqueles cabelos lisos, no estádio de futebol, no tênis de corrida, nas amizades superficiais que nem amigos eram mesmo, nos piores dias não recebi uma ligação de quem eu julgava meu amigo.

Comecei as mudanças aos poucos. Fui me descobrindo. E foi incrível. Existia uma pessoa completamente nova dentro de mim, uma pessoa que estava lá o tempo todo e que eu escondia, pois pensava muitos nos Outros. Os Outros podem ser tão terríveis na nossa vida quanto foram em Lost. É preciso saber colocar limites. E estou aprendendo.

Aprendi que amo andar de bicicleta e odeio correr. Aprendi que amo meus cabelos do jeito que eles são, enrolados, sem medo de água e umidade (praia sem restrição era um sonho que se tornou realidade), aprendi que os amigos de verdade vão me acompanhar na cerveja no dia 05, me falarão a verdade mesmo que doa um pouco, e estarão ali também no fim do mês, com a carteira fazendo eco, emesmo depois de um tanto de tempo sem contato, amigos não mudam quando a gente se muda, serão os mesmos.

Identidade é tudo. Se reconhecer nas suas ações é tudo. Se respeitar é tudo.

Ter a resposta quando me perguntam​ quais são meus sonhos não tem preço, porque sei quais são e sei também que eles podem mudar.

Entendi que aqui nas redes sociais cada um é apenas uma pontinha de um iceberg, assim como eu. E o que é mais importante, aquilo que realmente faz a diferença, se isso vence todo este mundo raso num piscar de olhos, então estamos indo muito bem.