Tudo está fechado | Parte 1

Estou trancada em casa, assim como todo mundo. Todo o mundo mesmo. Saímos apenas para fazer o necessário, comprar comida e comprar remédios. Isso pra quem tem uma casa pra voltar, e pra quem ainda tem dinheiro pra gastar.

Quem não gosta de música? É o que mais tenho sentido falta. Tem um lugar em Pinheiros chamado Bona, gosto muito de lá. Como toda casa de música, está fechada também. Quer ir lá comigo? Se você tiver tempo, é claro. Agora temos tempo, eles dizem. Eu acho que agora que temos tempo, nos falta espaço. Entende o que quero dizer?
Começo confidenciando que sou uma falsa extrovertida, Clarice tinha um termo melhor para definir isso, mas não me lembro agora, e nem sou Clarice, me perdoe.

Voltando ao Bona… Talvez seja melhor que você entre comigo. É noite, passando das 20h, entramos por uma porta de vidro onde somos recebidos por uma moça simpática e sorridente, de longos cabelos lisos e escuros. Como num passe de mágica, nos sentimos em casa. É assim que eu me sinto. Depois que entramos pela porta de vidro, as pupilas relaxam porque tudo é iluminado por uma luz quente e baixa, o ambiente é aconchegante, escolhemos uma mesinha que fica bem em frente ao pequeno palco, que de tão bonito é quase lúdico. Há uma estante com livros, plantinhas, objetos que mudam a cada visita.

Nas paredes olhamos os quadros antigos de grandes estrelas, tem Beatles na parede, e você sabe o quanto gosto de Beatles. Essa noite é minha, posso trazer para o palco quem eu quiser. Tomamos um drink, te entrego um sorriso cheio de esperança e você me sorri de volta. Um rapaz assume o microfone, nos agradece por estarmos ali, ele está pedindo para mantermos silêncio e para não dispararmos flashes em quem se apresenta, pois devemos respeitar os artistas. Ele é de uma elegância simples, muito natural. Tomamos mais um gole do drink, a casa está confortavelmente cheia. As luzes se apagam, o palco se ilumina e quem se apresenta é Pedro Pastoriz. Um rapaz alto de camisa polo, o cabelo cheio de personalidade briga com a camisa séria, quem vence? Ele segura um violão bonito, nos faz sorrir enquanto canta Restaurante Lótus, eu estou sorrindo mais porque me divirto com a ideia de uma meca dos vegetarianos. Pedro canta e conta histórias, às vezes tudo ao mesmo tempo. Ele se senta, se levanta, canta com voz suave, e não para de sorrir. O nome do álbum dele é Projeções, sabia? Isso explica muita coisa, ou não explica nada, o que é melhor ainda.

Quando o show termina, ele faz chover sobre a própria cabeça muitos confetes coloridos, e agora além de sorrisos a casa se enche de aplausos. Você me cutuca e me diz, olha pro lado. Eu olho e vejo, é ele, Tim Bernardes! Tim Bernardes também aplaude e sorri, os dois são tão altos e eu tão baixinha. Você tira uma foto pra mim? Pedro se despede com tanta educação que se nos contasse que é britânico eu acreditaria. Mas é brasileiro, que bom que é brasileiro.
Eu sei, você quer saber quando é que a gente volta. Deixa eu terminar meu drink… Voltamos logo, quase num piscar de olhos, prometo.

plexo solar

O que faz com que você se sinta vivo?
O que faz seu coração disparar?
O que arrepia sua pele e faz seus olhos brilharem?
Você já se perguntou sobre isso?
Eu já.
Eu gosto da chuva molhando meu rosto. Gosto do som das ondas e do cheiro do mar.
Gosto da sensação de ouvir uma música linda pela primeira vez, e da sensação que eu tive quando vi Paul McCartney subindo no palco.
Gosto do som de aplausos, gosto da hola no estádio de futebol e quando minha gata se aninha no meu colo.
Gosto do som rouco da voz matutina de quem se quer bem. Gosto de abraços, mas sou tímida demais pra abraçar, então, gosto mais quando sou abraçada.
Gosto dos poemas de Mário Quintana e do que ele chamou de O Segundo Olhar, porque eu acho que talvez eu seja uma dessas pessoas que precisam de um segundo olhar, e quando ele diz “eles passarão, eu passarinho”, eu entendo, me sinto um passarinho.
Gosto de livros antigos que já foram de alguém, e de silly love songs, gosto de tudo que diz respeito ao George Harrison. Gosto de olhares bonitos, de cafuné e beijo na testa. Gosto do som do violão e de fotos antigas, gosto de sentir um bem querer, que é assim algo que não se sabe dizer, gosto de tudo que toma um canto aqui no plexo solar, tudo que é assim, de um jeito tão especial, que por mais que eu tente, não vou conseguir explicar.

Meu canto no mundo

De vez em quando o mundo é um lugar lindo, céu azul, flores por todos os lados, crianças rindo, cães e gatos esperando um carinho, esperando um sorriso, de vez em quando eu sou só sorriso.

E o mundo não muda, o que muda sou eu, e tudo ainda é a mesma coisa, mas não eu.
E não tem um canto pra ir. Não quero flores, nem criancas, nem cães e gatos, nem céu azul. Queria um canto pra ficar até me sentir passar. E passar até voltar a ser quem vê o mundo de um jeito que faz sorrir.
Tem dia que eu só quero chorar, chorar até passar, até sentir que não tem mais como chorar. Até que minha última opção seja sorrir.
Me derramei, de tanto segurar, me derramei, os olhos não conseguem guardar as lágrimas que não sabem que rumo tomar, nem as lentes grandes dos óculos me ajudam a disfarçar.
— Por que você tá chorando? É o livro?
— Sim. É o livro.
— Tem uns livros que emocionam a gente.
— Sim.
Não existe um canto no mundo. É por isso que eu sempre carrego um livro comigo.

céu

universe

Não tinha o tamanho certo para caber em suas mãos,
por isso me fiz menos intensa, e contive cada palavra.
Segurei o riso e o abraço.
Fechei os olhos, apertei os lábios.
Guardei a saudade no peito e a esmaguei devagarinho.
Calei as palavras, fechei portas.
Andei mais devagar, esperei e esperei.
Deixei passar, assim como passam as nuvens no céu sem que você possa notar,
não me notou, uma nuvem branca, sozinha, passando devagar.
E de tanto me reduzir pra caber em suas mãos, sumi, como somem as nuvens
num céu azul… E foi assim que descobri que não sou nuvem passageira.
Eu sou o céu
E o céu não foi feito para caber na palma das mãos.

Minha camiseta e a farsa revelada

Tenho uma camiseta com a estampa Written and Directed by Quentin Tarantino por motivos que pra mim são óbvios, eu amo Quentin Tarantino.
Dia desses topei com um cara que vestia a mesma camiseta. E meio como naquele meme do Homem-Aranha, nos apontamos e rimos e logo em seguida ele me disse:
– Mas você se vê como uma personagem dirigida por ele? Porque eu com certeza sou.
– Que horror. Não.

Não, definitivamente não seria Django que volta para vingar todas as humilhações sofridas como escravo, não seria Shoshana aniquilando nazistas com fogo e rindo deliciosamente, nem Mia Wallace sangrando pelo nariz vivenciando os extremos da vida, uma pena mas também não seria Jules Winnfield interpretado por Samuel L. Jackson dizendo uma das falas que eu mais gosto “English, motherfucker. Do You speak It?”, amo, mas não me cabem.

Geniais.

Existem mais, vocês sabem. Um mais arretado que o outro (tomei a expressão baiana emprestada pois somente ela expressaria o que eles são).
Todo personagem do Tarantino é um trator, não mede consequências, apenas vai. Cada um deles impõe respeito através da força, do medo, do poder.
Assisto, observo, amo as falas como em Cães de Aluguel por exemplo. Que filme.

Fiquei me perguntando então, quem teria me dirigido. Teria sido Woody Allen? Não. É que as moças nos filmes dele são pastéis demais, não sou pastel. Tem o Wes Anderson, seria bom pelas cores e pela complexidade e por Owen Wilson que gosto muito.
Mas precisamos seguir pela realidade do que se é, vestindo minha camiseta Escrito e Dirigido por Quentin Tarantino teria que assumir que sim, me aproximo muito mais de Guel Arraes, sobretudo em Lisbela e o Prisioneiro.

Não pelo mocinho e pela mocinha que se apaixonam, mas por conta do encanto pela palavra e pela simplicidade das coisas. As coisas bonitas e pequenas que dinheiro nenhum compra, já que todos ali são pobres, pobres no bolso e ricos de espírito. Cada personagem dele é uma revolução da alma, um grão de areia brilhante, uma noite quente, a busca por soluções através de outros meios que não a força. Tem a fala de Lisbela “O amor é um precipício, a gente se joga nele e torce para o chão nunca chegar”, seria algo que eu teria dito se não tivessem escrito pra ela.

É assim que me vingo, é assim que tento mudar o mundo, através de outros meios, através da palavra, e eu por menor que seja, também sou um grãozinho de areia brilhante e teria Caetano Veloso tocando ao fundo.
Eu entendo Quentin Tarantino, mas recusaria o papel. Ainda visto a camiseta, mas saiba que sou mais Guel Arraes.

Anjos

Tem isso de não chamar pelo nome as coisas que as pessoas temem, como se fosse culpa do nome a coisa ser como é.

Nunca tive o costume de rezar, mas as pessoas que tinham esse costume sempre me diziam, antes de dormir, reze para o seu anjo da guarda. E eu nem sabia que tinha um anjo e muito menos como rezar.
Queria um nome, e por ser famoso, escolhi Gabriel. Gabriel sabe que não sei rezar, sempre soube. Deito na cama, meus olhos ficam olhando o escuro e por vezes não digo nada, por vezes só quero dormir, e dormir seria minha única oração. Gabriel sabe, e sinto que ele não se importa.
Quando criança cismei que tinha um amigo invisível, acho que foi mais fruto de um filme que eu vi do que da minha própria imaginação, e cismei também que esse meu amigo ficou preso na construção da casa do vizinho. Meu amigo sem nome atrás de uma janela numa casa incompleta. Como foi parar lá eu não sei.
E acho que foi ali que findou a amizade.
E tem Gabriel, o tal anjo famoso.
Não sei se podem acumular funções os seres celestiais, mas caso sim, é dele também a incumbência de me guardar. Eu que não sei rezar, e gosto de nomes, não tenho medo dos nomes das coisas, tenho medo delas em si, e agora olhando o escuro, ainda sem saber rezar, quero acreditar que existe um Gabriel, e que ele vai me guardar mesmo sem saber como se reza para um anjo da guarda, mesmo que eu só me deitei pra dormir.

pra mim

pra mim

Fosse o céu de outra cor que não fosse azul, e tivesse o mar a calmaria de um lago, não seria o céu um céu, não seria o mar um mar.
São assim meus feitos, meu jeito, minha forma. Não seria eu se fosse diferente do que sou.
Mesmo que vez ou outra eu queira sim ser o avesso do que sou, não há o que fazer, aceito a forma que tem. Se é de sentir em demasia, que assim seja. Se é de chorar até molhar a face e as palmas das mãos, que assim seja. Se é de rir até criar vincos nas bochechas, que assim seja também.
Se é pra amar sem ter certeza alguma, que ame, e ame mais até que eu e o amor sejamos uma coisa só. E quando existir dúvida sobre quem sou e sobre o que me tornei, que eu consiga enxergar que eu e o amor somos uma coisa só. Não haverá razão que vá me fazer querer ser diferente quando tiver no peito a certeza do que sou, mesmo com dor, se houver amor.

Você conseguiu entender?

Quando eu falo sobre amor consigo ver o que se passa naqueles olhos brilhantes que me olham de volta, eles acham que falo do amor romântico, o amor entre um casal. Talvez eles pensem que falo sobre um homem vindo me salvar.
Não.
Também acredito no amor romântico. Mas não é só sobre isso. E sobre me salvar, tenho feito isso muito bem.

O amor está em tudo, está no momento em que escolho não ser indiferente, quando me importo com quem não conheço, está na forma como trato os animais e como vejo a natureza, o amor está sobretudo no perdão, quando me ferem e quando eu firo alguém. O amor está na rua quando desconhecidos marcham juntos pelo bem comum, o amor está num cartaz pedindo igualdade e o fim das guerras.

É sobre amor também quando o corpo pesa e ainda assim saio da cama e coloco na cabeça que preciso acreditar em mim.
É amor também quando vou embora.
O amor está em tudo que se vê e mais ainda no que não se vê.
Está na criança andando de mãos dadas com o pai, e no bebê no seio da mãe.
Amor é quando perguntam se cheguei bem e amor também é quando respondo, sim cheguei.

Amor é quando escolho não desejar mal nenhum a quem tanto me faz mal, e é difícil meu Deus, como é difícil. Odiar sempre será a escolha mais fácil. Revidar sempre será tentador. Pisar de volta é atrativo demais. Acredite, amor é a escolha difícil, é um exercício diário, mas que transforma.
Traz luz. Ódio sempre será destruição. Amor é construção.

Tenho reparado em pessoas que entram num ambiente e iluminam tudo ao redor, essas pessoas exercitam amor. Elas fizeram a escolha difícil e devem fazer todos os dias.
Amor é aquilo que os Beatles cantaram em All You Need Is Love em 1967 e que ainda não entendi muito bem. Talvez você também não tenha entendido.

Acho que amor é isso, é tentar mesmo sem entender, é fazer. Sim, faça amor não faça guerra. E aí você entende que é de sexo que estou falando, e eu preciso pedir pra que você tente de novo, tente mesmo sem entender, até conseguir atravessar essa fronteira física e fútil . É sobre amor. Sempre foi sobre amor.

Uma torneira pingando

Torneiras pingando, portas entreabertas que ficam fazendo aquele som de coisa arrastada, roupas espalhadas pelo quarto, todas essas situações mal resolvidas acabam comigo. É uma fobia.

Preciso fechar bem a torneira, abrir ou trancar a porta de uma vez, recolher as roupas, mesmo que fiquem empilhadas num canto qualquer.
Tenho horror a esse tipo de gente com quê de torneira pingando, portas entreabertas e roupas espalhadas, elas me lembram descaso. Detesto descaso. Olho com ar de desconfiança e preguiça.
Sei que vou ter que levantar e fechar a maldita torneira, dar um jeito na porta, recolher as roupas e assim ficar em paz. Mas até me levantar, vou sentir aquele frio na espinha, aquela dor latente nas têmporas enquanto meus dentes encostam uns nos outros, rangendo ressentidos. O suspiro vem, mas até lá, passo por tudo isso, e me irrita passar por isso. Pelo descaso.
Egoístas.
Fazem tudo do jeito deles, não se importam com minhas têmporas.
E eu, egoísta também, quero que se importem com minhas têmporas, quero conservar meus dentes, eles não se importam com meus dentes.
Posso ter inúmeros defeitos e manias, mas descaso, descaso não tem muito a ver comigo. Eu ou escancaro as portas ou as tranco de vez. A torneira ou jorra ou fica seca, e minhas roupas, minhas roupas moram metade numa cadeira, metade no guarda-roupa. As que eu mais gosto estão numa cadeira.

O que eu quero saber de verdade

smile
O que eu quero mesmo saber é se você grifa as partes mais tocantes dos seus livros preferidos. E quero saber quais são as partes grifadas.
Quero saber se você também ouve o sino da igreja batendo às 18h e se isso faz seu coração imaginar que seria bom morar no interior.
Quero saber se você também tem saudade de comer o feijão que sua vó cozinhava, e se no joelho você carrega uma cicatriz da infância.
Quero saber se você já chorou ouvindo seu ídolo cantando ao vivo, se já jurou amar pra sempre, se já jurou não amar nunca mais.
Quero saber se de manhã quando você acorda a casa se enche de música ou do som da chaleira fervendo a água do café.
Me conta os seus sonhos bobos, seus medos terríveis, suas histórias engraçadas e inacreditáveis.
Quero saber o que te faz sorrir, e o que te toca o coração.
Quero saber quem é você. Simples e puramente assim.
Todo o resto que se compra, se paga e se vende não me interessa.

Not Dark Yet – Bob Dylan

card_dylan

No quarto onde a luz amarela deixava tudo confortavelmente claro, eu ouvi Not Dark Yet do Bob Dylan repetidas vezes.
A frase no meio da música diz, behind every beautiful thing there’s been some kind of pain, e é tão verdade. A beleza do nascimento, e o nascimento está em todo lugar, o nascimento está inclusive na teoria do Big Bang, vida surgindo após uma explosão. Todas as coisas lindas carregam uma certa dor, como os olhos de Marilyn Monroe, um dos olhos mais tristes de Hollywood, como a personagem de Cameron Diaz em Vanilla Sky, a garota mais triste que já segurou um Martini, um passarinho que aprendeu a voar e que agora poderá sair do ninho, uma foto revelada de alguém que já não se pode abraçar, uma mulher usando batom vermelho depois de muito tempo sem se pintar, um amor que chega depois que um outro deu lugar.

Uma história guardada

– Você teria ficado comigo se eu tivesse pedido pra você ficar?
– Acho que sim, teria.
– E por que você não ficou?
– Você não pediu… e eu também não pediria. Acho que eu nunca vou pedir. Esse é o tipo de coisa que eu quero que aconteça, eu quero que a pessoa também queira.
– Eu sei. Se você tivesse ficado, talvez.
– Eu não teria me enfiado na sua vida. Queria que a gente entrasse junto, se tivesse que ser, teria sido assim, eu acho. Teria sido como aquela vez que a gente andou de carro pela cidade, e o céu estava todo estrelado, você me viu olhando pro céu, eu estava feliz, você parecia feliz, e a gente não precisou dizer nada. Lembra?
– Eu lembro.

Ficou saudade

01zsaudadee
Tela “Saudade” de Almeida Júnior (1899)

O tempo tem seu próprio jeito de arrumar as coisas
Eu quis acelerar, quis fazer do meu jeito
Quis correr pra ver se te encontrava
Quis fazer com que ele parasse pra que ele nunca te levasse daqui
Mas você sabe, eu sei
O tempo não é meu, o tempo não é seu
Ele está aqui sobre nós
E ele leva o que tem que levar
E a tudo que ele deixa aqui eu só posso dar um nome
E o nome mais correto agora seria saudade
O tempo te levou e deixou saudade

Cecília e portas abertas

Tamborilando os dedos na mesa ao ritmo da música Cecilia de Simon & Garfunkel, tan tan tan tantantã.
Ela já não sabe se o que tem no peito é um coração partido ou um coração refeito. De verdade, não sabe. Tamborilando sem parar, os pés também seguem o ritmo batendo com a bota pesada no chão.
Que confusão eles deixam quando se vão.
O pior é que eles nunca se vão por completo, sempre deixam a porta entreaberta e ela sempre odiou isso, saia e feche a porta, maldito, e apague a luz, por favor.
Ceciiiilia
De manhã fazia sol, por isso o vestido, mas tem chovido, por isso as botas. A controvérsia ambulante.
Da janela ela espera ver algum sinal, o fim do mundo começando, um paraquedista jurando amor eterno, qualquer coisa, nada acontece. O céu apenas escurece.
Suspira com dor.
O que isso significa? O peito apertado, a respiração rarefeita, a imagem que se repete na cabeça mil vezes sem parar? Um AVC e uma paixão não correspondida tem os mesmos sintomas, isso é uma certeza.
Ah senhor, jubilaaation.
A porta entreaberta é irritante, ela queria gritar no meio da avenida, gritar como uma louca. A sanidade mata as pessoas, estar são o tempo todo consome energia demais.
A Cecília era uma cretina, você já ouviu essa música? Ela perguntaria isso a alguém, se existisse alguém. E o cara era um tolo prestes a ter um AVC, assim são as pessoas que odeiam portas entreabertas, elas adoecem.
Feche a porta ela diz pra si mesma. Feche a porta, levante, feche a porta, feche a maldita porta, garota. Você pode.
Tan tan tan tantantã
E no meio do surto psicótico quase no final da música, alguém repousa a mão nas costas dela, o que faz com que ela saia do transe e se vire quase que em câmera lenta, um par de olhos escuros e gentis guardados num rosto do ano passado lhe observam com carinho e a palavra mais doce do mundo foi entregue a ela como um folha que cai de uma árvore no outono.
Oi!
Malditas portas abertas!!!! É por elas que eles entram.

Fim da história

21151215_759733977544301_6293369681360530600_n
Essa noite eu sonhei com você. E foi um sonho bom. De vez em quando eu sonho, e quando acordo entro naquele site que fala dos significados, aí procuro lá o que significa sonhar com estrelas vermelhas e brilhantes numa noite escura.
Dessa vez eu não precisei procurar o significado de nada. Eu acordei sabendo. Foi perdão. Nosso processo foi concluído.
Eu sei.
Eu já disse que tinha te perdoado, e tinha mesmo.
E nós já falamos sobre todos os estragos que aquela relação trouxe pra mim enquanto você dizia que só poderia agradecer por tudo que eu fui pra você, eu me culpava por ter permitido que você fizesse tudo o que fez, e por eu ter me permitido ser tão infeliz.
O amor não era aquilo, e eu achava que era.
A gente não brigava, eu sei. E durante muito tempo eu acordava cansada depois de pesadelos brigando com você. É porque eu devia ter brigado, meu subconsciente sabia disso. Devia ter brigado por mim.
Eu deveria ter gritado, eu deveria ter saído correndo e fechado a porta com um belo estrondo, não o fiz, eu deveria, deveria. Essas palavras batiam na minha cabeça como um martelo.
Nunca fui de assistir Sex And The City, mas quando tudo acabou entre a gente, minha professora de inglês, que também te dava aula, disse que nessa série uma personagem fala que a gente leva metade do tempo que durou o relacionamento pra finalmente esquecer.
Eu achei que seria tempo demais, acabou que era tempo de menos.
Só agora. Só agora sinto que posso seguir em frente.
Só agora sei que não foi minha culpa passar por tudo que passei.
Entendi que eu mereço mais, que eu mereço amor, afeto, cuidado, carinho, respeito, amizade. Nada menos que isso.
E foi por isso que eu sonhei com você, foi por isso que no meu sonho nós nos abraçamos, porque finalmente eu deixei você ir, te deixei ir com todo o peso da dor, do medo, da culpa que eu carregava, você finalmente vai embora e vai levar a pior parte de mim, e por isso eu sou grata. Te agradeço porque eu sei o quanto minha vida pode ser melhor.
Seja feliz, querido. Seja feliz por onde for.
Me lembro de você rindo quando eu disse que estava sozinha, lembro de você dizendo de forma até orgulhosa que tinha me desiludido.
Não, este troféu você não tem.
Eu me refiz, tenho me refeito.
Tenho aprendido a esperar o melhor das pessoas, já que por tanto tempo imaginei que todos seriam como você, você não deixou amor, deixou medo, deixou baixa autoestima, deixou receio, deixou dor.
Mas eu sou forte, sou doce, eu sou amor, é por isso que estou me refazendo, porque é nisso que eu tenho que acreditar, na força, na doçura, no amor;
E é por isso que esse perdão é mais meu do que seu, na verdade, é todo meu.
E eu estou tão feliz.

Uma sessão por semana

4-Os-Excêntricos-Tenenbaums-2001

Johnny, eu queria te falar que não tenho nada do que reclamar.
Que a vida é uma experiência psicodélica de gratidão sem fim, que eu beijo unicórnios todas as noites e que o ar que eu respiro tem as cores do arco-íris.
Mas não é bem assim, e seria pra você, Johnny? Eu duvido que seria.
Mas não é sobre você, é sobre mim, certo?
Então, vamos lá.
Eu acordo todas as manhãs sem despertador porque o despertador sempre me deixou enfurecida, sendo assim, me programo pra acordar. Tem funcionado há anos, não pretendo mudar.
Tomo café preto, às vezes tão sonolenta que nem sinto que estou tomando, não gosto de café, de vez em quando troco por suco de laranja, não faço chá, não tenho paciência de esperar pela manhã a água ferver, esperar o chá entrar em fusão, esperar esfriar, e aí tomar o chá, mas prefiro chá, olha que coisa. Chá de erva-doce, chá de erva-cidreira.
Eu gosto de tomar banho de manhã, e ouvir música, gosto da música num som suficientemente alto para que eu possa ouvir por toda a casa, só eu, a música e minha gata em passos lentos, do quarto para a cozinha, da cozinha para o banheiro e do banheiro para o quarto.
E eu falo sozinha, imagino conversas que nunca acontecerão, e torço pra que elas aconteçam de um jeito meio apaixonado eu diria, mas tudo bem se não acontecer. A vida é um susto quase o tempo inteiro. A gente planeja, inventa rotas, e sai tudo diferente, nada é como esperado, até esse momento, você não acha? Eu aqui, falando sem parar, te contando coisas que não farão a menor diferença pra você.
Eu gosto de ouvir músicas tristes, e não é porque eu sou uma pessoa triste, eu não sou. Acho que minha risada é uma das coisas mais alegres, sem dúvida, mas as músicas tristes me fazem pensar,  pensar é bom.
Tem noção do quanto eu já devo ter sido idiota, Johnny?
Eu tenho.
E fui idiota pra não ser idiota, aí é que mora a ironia.
A gente é besta.
De que adiantou me proteger de coisas que eu não fazia a menor ideia se aconteceriam, tava tudo na minha cabeça. Um amigo disse pra eu ficar tranquila, que eu ainda vou ter muita oportunidade pra ser idiota, que não fiz nada de grave até agora, mas sabe como é? É difícil olhar pra trás e me ver como naquela cena do Leonardo DiCaprio em que ele joga dinheiro de cima do Iate no filme O Lobo de Wall Street, eu não joguei dinheiro, mas joguei tanta coisa… Você já deve ter feito isso, você é humano, Johnny. Humanos tem essa coisa de errar achando que estão acertando.
Mas é isso, não é? Tá tudo bem, é o que você vai me dizer, que está tudo bem.
E eu sou tão boba, mas tão boba, que eu acredito, e te entrego meu sorriso mais largo, porque apesar da vida não ser feita de unicórnios e arco-íris, ela é boa, é muito boa, Johnny. E olha que eu tenho chorado um tanto, e mesmo assim, acredito nisso.

Estrelas e rubis

Num lugar muito bonito e silencioso pude ver a noite chegar.
O céu foi tomado por um tom de azul tão escuro, tão denso. E as estrelas eram todas vermelhas, um vermelho vibrante, nunca tinha visto algo assim.
Estrelas enormes, eram da cor de rubi.
Senti medo. Quis fechar os olhos. Quis voltar pra casa. Quis me esconder.
Alguma voz atrás de mim me disse, não tenha medo, não há o que temer. Aprecie, é lindo.
E o medo se foi.
Senti meu corpo relaxando, e observei com carinho todo aquele céu, e era realmente lindo, uma das coisas mais lindas que eu já vi. E de tanto olhar, me senti parte dele.
Acordei.
Foi um sonho.
Foi só um sonho.
Fiquei pensando, algumas coisas são tão lindas, e eu ainda tenho medo, que bobagem. Meu Deus, que bobagem é o medo.