Ano II da pandemia

Tenho bocejado tanto. Sinto que minha alma quer engolir o universo inteiro.
Respiro, mas não tem sido o suficiente.
Algo dentro de mim anseia por um pouco mais de vida.
Existem limitações, tanto minhas quanto do mundo.
Eu bocejo e meus olhos se enchem d’água.
É sempre a mesma coisa.
O tédio absoluto incomoda até meus pulmões.
O incenso queima no quarto e eu sinto o cheiro de lavanda pairando no ar.
Escuto o som da chuva caindo no quintal, descendo pela calha, tamborilando no telhado.
No meu quarto deixo apenas uma luz quente acesa. Todas as luzes de cores frias, aquelas com cara de hospital, me irritam os olhos e bagunçam meus instintos.
Aqui dentro, rodeada por livros, cadernos, canetas, discos, fotografias e tudo que me é familiar, me sinto segura, acolhida, confortável, guardada, como uma fruta na gaveta.
Antes que eu soubesse, meus pulmões já sabiam, começo a bocejar.

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