Manhãs e café puro

Na primeira hora da manhã, quando um de nós acorda antes do outro, é sempre nessa hora que eu sinto que isso vai acabar. Precisa acabar.

É essa grande diferença, esse abismo entre você e eu.
Queria que você morasse no meu silêncio e mergulhasse fundo no meu pensamento enquanto eu te observo levantar, escancarar a janela, calçar os chinelos e caminhar até a cozinha.
Eu fico aqui fazendo do edredom meu canto seguro, e fico pensando em tudo que eu poderia fazer exatamente agora. Queria fechar a janela, te trazer de volta para o único lugar onde não existe esse grande abismo entre você e eu.
Mas eu sou toda silêncio pela manhã. Eu sou toda pensamento. Você bate as portas, as gavetas, derruba copos e talheres, liga a máquina de café, abre a torneira, bate o pé. Você grita meu nome.

– Vem tomar café!

E é isso. É café puro. Sem açúcar. Eu vou, calada, porque não sei o que me acontece pela manhã. Você me olha nos olhos, finge deboche, mas eu sei que no fundo isso é uma dor. A dor de não saber. Na realidade… a dor de saber que nunca vai descobrir. É isso, não é? É isso que te dói. Não me entender, não conseguir enxergar o que eu já vi. Mas ainda é cedo demais, eu falaria, eu até falaria. Mas pela manhã eu prefiro o silêncio.
E é aqui que você me diz que dormiu com uma e acordou com outra. Queria te contar que sou a mesma pessoa, mas você não entenderia. Por isso te dou apenas meu silêncio.

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