Uma crônica da Clarice

Uma vez eu li uma crônica bonita da Clarice, ela falava sobre amor ruim. Nessa crônica os personagens eram um homem e um tamanduá. O tamanduá era tratado como se fosse cachorro, e no modo de ver da Clarice, isso causava uma grande confusão de identidade no animal. Segundo ela, uma das piores coisas que alguém pode sofrer é a privação de ser quem realmente é. Ainda mais se for em nome de um amor ruim. Clarice acreditava que um dia o tamanduá enxergaria sua natureza, se revoltaria e sentiria ódio do homem que o tratava como cachorro.

Essa crônica ficou na minha cabeça por bastante tempo. O amor ruim. Existe amor ruim? Existe sim. É como a água. A água em seu estado puro é só água. Mas tem água doce, água salgada que não se bebe, tem água contaminada, tem água com flúor que é a que a gente recebe na torneira, eu acho.

O amor sozinho é só amor. Mas tem isso, vai depender do que você coloca nele. Tem amor com cuidado, tem amor com pressão. Tem amor que liberta, tem amor que prende. Acho que numa vida eu já devo ter sido tamanduá e já devo ter sido homem. Que coisa. E pra tranquilizar, Clarice pede de coração que o tamanduá perdoe o homem e que o homem aprenda a amar.

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