O velho Chevette

Meu pai tinha um Chevette, foi o único carro que eu guardei o nome porque achava engraçadinho.
O carro ficava mais tempo na garagem do que na rua, disso me lembro bem, e por algum motivo ele ficava destrancando.

Muitas vezes brincava no meu quarto, e muitas vezes eu pedia pra ficar no carro. Mas não pela vontade de dirigir, vontade esta que sempre esteve presente em meu irmão. Nem no banco do motorista eu sentava, gostava de ter espaço. O que me atraía no velho Chevette era o rádio. Ouvia música, era muita música brasileira que tocava nos anos 90, e a que eu mais gostava era Partida de Futebol do Skank, era divertida, me fazia pensar que todos os meninos eram iguais e queriam ser jogadores de futebol.

Talvez eu gostasse do carro por ser um mundo dentro de outro mundo, onde não se ouvia o que acontecia lá fora, onde era apenas eu e um rádio ligado.

Um dia eu dei uma caneta pro meu pai.
Vi que meu pai deixou a caneta no porta luvas do carro, acreditei que o porta luvas fosse o elo silencioso que nos unia de alguma forma.
Um dia meu pai vendeu o Chevette.
Perguntei ao meu pai onde estava a caneta que eu tinha dado de presente a ele, e ele disse:
– No porta luvas do carro.
E lá se foi o velho Chevette. Apenas o silêncio permaneceu.

Às vezes escrevo pra mim, às vezes escrevo pra criança que fui um dia.

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