Sorte minha, sorte sua

Hoje de manhã o sol brilhava tão forte que forçava uma expressão feia no rosto de todos que ousassem sair na rua. Ousei, pois tinha que trabalhar. Logo no ônibus, ao girar a catraca, minha moeda da sorte caiu da carteira, um tilintar dourado que também brilhava, mas desta vez, não no céu, e sim no chão. Com algum esforço me abaixei para fazer o resgate da moeda que descansava aos pés de uma moça, a quem pude reparar, me olhava com um ar de quem julga “tudo isso por uma moeda?”, e com meus olhos de quem se defende, respondi mentalmente, “tudo isso por uma moeda da sorte”.

Não fui eu quem a nomeou assim. Não costumo atribuir sorte à objetos, mas certa vez, tentei pagar a condução com algumas moedas e o cobrador me devolveu a mais dourada de todas.

– Essa moeda é de 10 cents de Euro, parece com os nossos 10 centavos, mas é Euro. Guarda que ela é tua moeda da sorte.

Desde então, tenho a sorte guardada comigo.

E dentro do ônibus, fiquei observando o mundo do outro lado da janela. Vi um homem com um enorme bigode grisalho, fumando um cigarro num movimento extremamente lento, levando a guimba fumegante até os lábios, ele não estava fumando, estava beijando uma guimba de cigarro, debaixo de um sol de 31°, enchendo os pulmões com poluição e nicotina.

É o que fazem as pessoas apaixonadas, elas transcendem os pesares, se deixam ferir, ferem, se submetem às dores e humilhações, torna-se viciadas.

É só uma moeda de 10 cents de Euro.

É só uma guimba de cigarro.

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