Agora é o Show do Milhão

Queria ser uma pessoa melhor, dessas que vivem de luz e gratidão, uma vida em cores saturadas.

Mas não. Sou humana demais, no sentido não tão bom da coisa. Deus sabe que tenho meus pecados.

Nesse mundo cheio de tilelês dizendo “mais amor, por favor”, eu sou uma pessoa que sente raiva. Essa raiva passa por mim como uma corrente elétrica.

Sinto raiva do meu vizinho, que é uma pessoa mesquinha e de péssimo gosto musical. Pra ele nem dou bom dia, que é pra saber que tenho raiva mesmo.

Me irrita a quantidade de senhas que tenho que decorar. Por isso já entreguei minha digital pra um tanto de aplicativo besta. Mas vira e mexe me pedem uma senha pra liberar minha digital. Aquela que eu já dei pra eles.

Me tremo só de pensar em ser assaltada, e em verdade dizer: não lembro a senha!

E aí, nem a digital.

A pressão desse tanto de coisa que tenho que saber, e ter tempo pra responder, né? Porque é assim. É exatamente assim que funciona agora, eu tenho que responder AGORA. Nem que seja pra dizer que te respondo depois. Sim, isso também me deixa descontente.

A vida virou esse grande Show do Milhão, só que não tem milhão nenhum pra receber. Os universitários, coitados… Quase em extinção. E eu aqui pensando qual escolha é a certa, mesmo que no final eu não ganhe nada com isso.

Tudo é música

Maria Bethânia já falou sobre as rugas e cabelos brancos que ela tem, “são meus, eu mereci”, disse ela com o orgulho de quem entendeu que só envelhece quem vive.

O tempo não parou, e como disse Cazuza, o tempo não pára. Um dia após o outro e ainda estou aqui, você ainda está aí.
Talvez com noites em claro, almoços esquecidos, louças acumuladas, roupas amassadas. Você é dono do seu próprio caos.

Juntei livros e CDs, coloquei tudo numa sacola e doei. Torci pra que alguém os recebesse como recebi. Liberei espaço pra deixar a vida entrar. São rituais, eu acho. Meus rituais. Sempre renovo, sempre solto, eu me liberto.

E assim se foram os livros, os CDs, e chegaram mais livros, e no lugar dos CDs, chegaram discos que eu toco na vitrola. Aquele leve chiado tão charmoso que sai dela, e que até pode ser defeito, mas é o que me faz pensar que apesar do tempo ser tão senhor de si, alguma coisa sempre resiste, algo bonito, essa nostalgia, essa saudade.

Achei fios brancos entre meus cabelos, são os primeiros de outros que virão. Diante do espelho imagino quantas vezes me soltei e me libertei, qual parte de mim não existe mais? Eu sei. Com certeza eu sei. Há sempre uma pista da própria história na alma de cada pessoa.

O que pode ser diferente? Vou descobrir com algum oráculo? Ah, que bobagem.

Que bobagem, meu Deus. Enquanto o tempo me envolve como um réptil faminto e paciente, me preocupo com o que pode ser. O que pode ser?

A vida é um susto. É um voo de borboleta, é tudo que não foi planejado. E eu penso no que Bethânia disse… Penso agora porque me falta sono, e desejo do fundo da alma um dia me olhar no espelho e abrir um sorriso bonito, um desses alegres de coração, e dizer ao constatar todos os meus erros e acertos, minhas marcas e meus cabelos brancos, que eu mereci, são todos meus!

Pensamento Voa

Acordei às 3h da manhã com o barulho do vizinho. Quase três horas depois, e eu ainda estou acordada. O pensamento voa pra longe.

Aproveitei pra ouvir um podcast, mais uma dessas novidades dos tempos atuais. O episódio falava sobre a impermanência das coisas, como tudo passa.

Acredito que conforme a gente vai vivendo e vai perdendo coisas e pessoas, a ilusão do pra sempre vai se diluindo dentro da gente.

Acho que por isso o abraço das mães é tão apertado. A mãe vê o filho crescendo, ela se despede de cada fase que dura uma eternidade e acaba num piscar de olhos. Uma mãe abraça forte o filho.

E a gente abraça forte os bichinhos de estimação. Se você teve ou tem um cachorro, já deve ter pensado sobre a conversão, a idade de cachorro que falam por aí, cada ano vale por sete. Se é verdade, não sei. Mas que me fez querer ter mais tempo com eles, isso fez. E mais tempo às vezes não existe, e aí a gente muda pra melhor tempo.

E melhor tempo eu tento ter sempre que encontro, por sorte, uma pessoa especial, um lugar especial, uma comida especial. E não se enganem, eu tento não me enganar. O especial, pra mim, é o que me toca. O que me emociona. É aquela música que vai no compasso do meu coração.

Tudo passa, sem dúvida. E por isso abrace, abrace forte e apertado, pra enganar o tempo, pra congelar o momento, pra trazer pra perto do coração. Depois solta, deixa ir. Que tudo flui, tudo voa, voa como o pensamento.

Segredos de Astronomia

Eu não entendo nada sobre Astronomia ou Astrofísica… Quando o assunto é céu, eu gosto é de observar e me perder em pensamentos.

Acho que gosto tanto de ver o pôr do Sol quanto gosto de ver uma noite estrelada. O céu é algo que foge ao nosso alcance e é lindo.

Aprendi recentemente que um buraco negro, na verdade é uma estrela morta, uma grande estrela morta. O buraco negro tem tanta energia, ele vai se alimentando de tudo que há em volta. Existe uma enorme força gravitacional que atrai tudo pra dentro dele. É uma força irresistível.

Quando algo é sugado pra dentro do buraco negro, dizem que existem duas hipóteses. Uma delas é que o objeto é destruído em várias partículas, na outra, é como se ele caísse eternamente, uma queda sem fim.

Você já se sentiu assim? Como se tivesse chegado perto demais de um buraco negro?

Eu sei, parece terrível.

Mas existe essa força de atração que te puxa como se ali existisse a resposta para a grande pergunta, seja ela qual for. E a única coisa que te impede de ser sugado é esse medo de ser quebrado em milhões de pedacinhos, ou de simplesmente cair e nunca mais tocar o chão.

Não sei o que um buraco negro pode significar pra você, talvez nada. Mas me pego pensando nessas coisas de vez em quando, e vou pra tão longe.

Agora, imagine o sol, totalmente o oposto de um buraco negro. Ícaro quis chegar perto demais dele, deu no que deu.

Viver e sonhar, que combinação perigosa.

Eu Voaria

Pode ser que a gente se esbarre por aí. Você sabe, o mundo é um ovo, é o que dizem. E é verdade.

Qualquer dia desses, quem sabe, sem máscara, sem medo, atravessando a rua, virando a esquina, eu dê de cara com você. E como vai ser? Te pergunto isso enquanto a luz da TV dilata minhas pupilas e confunde meu relógio biológico.

E eu aposto que esse dia vai ser um dia desses de caminho perdido, como eu costumava fazer. Quando saía sem destino, e só ia me guiando pela sorte, entrando em lugares bonitos, igrejas, museus, jardins.

Acho que nunca te falei, e talvez não seja nada assim tão espetacular, mas se eu pudesse ter um super poder, seria o poder de voar. E acho que sair assim, era meu jeito de voar.

Quem sabe, querido. Quem sabe num desses voos a gente se encontre e eu possa te dizer o quanto quero que você seja feliz.

Obrigada, George Harrison

Escuto George Harrison e sinto como se ele estivesse conversando comigo. A música tem esse poder de dialogar com nossa alma, é o que eu acho.

Em Beware of Darkness, George diz para termos cuidado com a escuridão, com a tristeza, ele nos diz que não estamos neste mundo, aqui e agora, pra isso.

E tem Here Comes The Sun, que escuto como uma canção sobre esperança, fala sobre o sol que está chegando depois de um longo inverno e ele repete a frase “está tudo bem”.

Em All Things Must Pass, George diz de forma simples e direta que tudo deve passar. Sabe, não de uma forma ocasional, ele diz que tudo deve passar como se fosse a condição natural de todas as coisas. Uma parte da letra diz algo mais ou menos assim:

O pôr do sol não dura a tarde toda
Uma mente pode soprar essas nuvens para longe
Depois disso, meu amor acaba e deve ir embora
Mas não vai ser sempre cinza assim

É uma linda música e fala sobre como tudo é ciclico, ou se você achar melhor, a vida é muito parecida com a frequência cardíaca, um sobe e desse, sempre pra frente. E se a vida é assim, tudo é passageiro.

No livro a Insustentável Leveza do Ser, Kundera diz que o homem não pode ser feliz, porque a felicidade é o desejo de repetição, e vivendo em linha reta, nada se repete. Mas discordo de Kundera, prefiro a visão do meu Beatle favorito.

Não estamos neste mundo para afundarmos em tristeza e escuridão. Existe sim este longo inverno que estamos vivendo simultaneamente no mundo todo. Mas o sol vai chegar e tudo isso vai passar. Por mais que os momentos de felicidade não se repitam da mesma forma, a felicidade virá novamente. Tento lembrar que não foi sempre cinza assim pra manter a esperança, espero que você também sinta isso no seu coração.

Vai passar, quem disse foi George Harrison.

Uma dose de esperança

Jim McKinley/Getty Images

Tenho visto borboletas quando saio de casa ou quando olho pela janela.
Vejo borboletas no meu quintal, elas passam rapidamente e vão embora, são visitas apressadas.
São sempre diferentes em forma e cor.

Inevitavelmente, lembro de uma crônica de Caio Fernando Abreu, em que o protagonista vê cada vez mais borboletas à medida em que enlouquece.
As borboletas saiam voando dos cabelos dele, borboletas pretas e azuis.

Me perguntei se eu poderia estar enlouquecendo também.
Mas ao contrarário do protagonista da crônica, as borboletas não me causam desespero, em vez disso sempre me dão uma sensação de paz.
Borboletas são como uma dose de esperança.

Agora, quando vejo borboletas, peço do fundo do meu coração pra que elas sejam reais.

O que é a vida?

São nesses momentos de nada que acabo pensando em tudo.

O sol do meio dia queima minha pele enquanto vivo o nada no quintal. Sinto o cheiro das flores chamadas Damas da Noite, o cheiro forte e doce invade meus pulmões me causando uma leve náusea. O cheiro é tão forte que me parece vulgar, é a imposição noturna às 12 horas.

Me confundo toda em sentimentos e divagações.

Sinto dentro mim algo tremer, como se treme ao ter medo do desconhecido.

E é isso que a vida é para mim, uma grande desconhecida, e a cada esquina uma pessoa nova, uma vida pra quem me apresento e em seguida me despeço.

Se Abujamra me perguntasse o que é a vida, diria isso. E se me perguntasse novamente, diria que é a dama da noite afogando meus pulmões, me dizendo que é doce e me deixando nauseada, e se me perguntasse de novo, talvez eu chegasse a conclusão que a vida é tudo que eu tento com tanto afinco descobrir, e ao descobrir me despeço.

E meu Deus, como me dói me despedir.

Escreva, você me disse

Algumas coisas eu só faço quando me sinto quebrada por dentro, como se fosse uma forma de me juntar, pedacinho por pedacinho e assim, montar uma nova versão de mim mesma.

No final, eu sei que continuo sendo quem eu era, só que diferente. Como se nessa montagem surgisse algo novo. Como uma cicatriz recente que nunca vai desaparecer, mas que aos poucos acabo me acostumando, como se ela sempre tivesse existido, sem ter tido um antes, somente o agora e o depois.

Estou cansada de sentir medo.
Cansada de procurar abrigo e nunca achar.
Estou cansada de segurar o choro e o grito na garganta.
Estou cansada de me atirar em braços que não vão me segurar.
Estou cansada de esperar o momento certo, de me fazer de distraída e torcer para tropeçar no meu próprio destino.
Eu estou completamente cansada, mas ainda não desisti.

Sobre Solidão

Essa solidão que é como o eco que eu escuto, é minha própria voz chamando por alguém que não existe.
O eco nunca me assustou, pelo contrário, me impressiona.
É o som devolvido, uma mensagem não entregue, ou quem sabe, uma mensagem que chegou ao destino correto, o próprio emissor.

Poeira interestelar

Olhando para espelhos sujos e quebrados, me vi assim, faltando um pouco de mim.
Lembrei de uma professora de filosofia que disse que o homem pós moderno está fragmentado.
Este homem fragmentado, que é pó de estrela, o homem que ao mesmo tempo que é nada, também é tudo. Já ouviu Tim Maia hoje?
Tem dias que sinto a luz de mil estrelas em mim, tem dias que eu apenas não sinto. E acho que todo mundo, em algum momento, se sente assim, pois cada um de nós é feito de poeira interestelar, e estamos todos muito, muito longe de casa.

Invisibilidade

Existe essa invisibilidade que assumimos quando andamos nas ruas.
Um ser humano atormentado que esbarra bruscamente em mim, e segue em frente sem ao menos pedir desculpas, me faz pensar na minha invisibilidade.

Que é a mesma invisibilidade que sinto nas redes sociais, mesmo com essa contagem de visualizações e likes, me sinto muitas vezes só e invisível.

Esse tipo de invisibilidade se perde apenas no encontro real, onde há olho no olho e pele com pele. Onde as barreiras do julgamento alheio desaparecem e encontro no outro o acolhimento que também ofereço. É assim que deixo de ser invisível, quando enxergo o outro.

Um Abraço Ajudaria

Acho que dois tipos de pessoas acabam se destacando. As que passaram por coisas muito difíceis e que por conta disso devolvem ao mundo um jeito mais doce de lidar e de viver, meio como se dissessem, “pra mim foi tão duro, não quero que seja assim pra você.” E existem as que passaram por coisas muito difíceis e devolvem ao mundo um pouco desse amargo, como se dissessem, “se eu sofri, então você também vai sofrer.”

Eu já senti o ímpeto de ser grossa com atendentes de telemarketing todas as vezes que percebia aquela má vontade. E agora me lembro de uma pessoa que me disse para pensar no salário que atendentes de telemarketing ganham, nas horas que trabalham, no ambiente que os cercam, tudo em volta, coisas que eu não considerava. E sempre que penso nisso, desisto de dar o troco.

Mas eu tenho a impressão que dar esse amargo é muito mais fácil e acaba viciando. Vicia como aquele cafezinho que a gente toma ao longo do dia e acaba perdendo a conta de quantos copinhos já foram. Você não entende o porquê das mãos trêmulas, o estômago ardendo, os dentes escuros e o coração saltando do peito. É o cafezinho, mas pode ser a maldadezinha. Nunca se sabe.

Por outro lado, devolver um pouco de doçura, quando quase não se ganha doçura, é um desafio. Mas indo aos poucos a gente pega o hábito. O mundo não é um conto de fadas, mas não precisa ser um pesadelo.

Nossa vida é cheia de alegrias, tristezas, momentos de fúria, de revolta, de alegria, de contentamento. Passamos por tantos altos que um gráfico de frequência cardíaca representa bem o que é a vida em si.

E eu me lembro bem de um momento em que estava só em baixa. Aproveitei uma crise banal para chorar todos os choros que havia acumulado dentro de mim, e uma pessoa, me vendo nessa situação, perguntou como poderia me ajudar.
Em seguida ouvi uma pessoa perguntando em tom de deboche:
– O que ela quer? Um abraço?

E agora eu fico aqui me perguntando, quantos cafés você tomou hoje?

Mais um dia no calendário

Tenho sentido falta dos momentos de troca.
Sinto falta de dar risada, de conversar, de sentir o cheiro de tudo, dos perfumes, das bebidas, dos lugares.
Sinto falta de, repentinamente, ser abraçada por algum amigo ou amiga.
Sinto falta das noites em que tive coragem e tirei os sapatos pra dançar.
Sinto falta dos olhares trocados, de ver a noite correr, sinto falta das luzes e dos prédios altos, cheios de janelinas com mais luzes ainda.
Que falta me faz viver.
Viver fora de mim, viver perto de alguém.

A Borboleta Amarela

Olha pela janela, ainda restam algumas árvores. O som das folhas ao vento rompem as barreiras e invadem nosso quarto.
Presta atenção, tudo tem som de saudade, tudo é canção.
Escuta o que digo, são sempre os detalhes, essas coisas tão pequenas e ligeiras como o riso no meio de uma conversa, ou como olhos que tentam escapar em vão de outros olhos espertos.
Pense em todas as coisas que não são ditas, essas coisas que a gente sabe que dispensam palavras.
Imagine uma borboleta cruzando seu caminho. Ela é linda e delicada, quase um par de pétalas que aprendeu a voar. A borboleta voa leve e apressada, num piscar de olhos você a perde de vista.
Quando fechar os olhos, meu bem, não deixe de ouvir o vento e as folhas. Quando ver uma borboleta, presete atenção, tantas coisas na vida são assim, como uma borboleta amarela e como folhas ao vento.

Aos meus caros espertos, dedico o meu cansaço

Já deve ter acontecido com você.
Você vai ao mercado, essa que não é uma das atividades mais gostosas do dia. Pega a fila do caixa com aquela cestinha pesando no braço. Você se pega olhando pra pilha de cervejas ao lado. Se perde pensando que queria levar um pacote delas, mas talvez você tenha bebido muito nos últimos dias, melhor dar um tempo. Nesses segundos de distração, algum esperto furou a fila e entrou na sua frente.
E você questiona sua sanidade mental:
“Será que essa pessoa estava aqui o tempo todo e só eu não vi?”
Pane no sistema.
Não, o infeliz furou a fila na maior cara de pau mesmo.
E talvez você deixe pra lá, porque existe um grande cansaço. Se o infeliz está com pressa, que o mundo dele acabe antes do seu.
Ah, mas isso irrita, não irrita?

Essas pessoas mais espertas, elas estão em todos os lugares. Na fila do caixa no mercado, no trânsito, no meio dos amigos nessas redes sociais, nos bares, nas praias, e a sorte delas é que existe esse grande cansaço. Eu até acho que foi esse tipo de gente que inspirou o roteiro do filme Um Dia de Fúria.

O resto é segredo

Acredito que ao ler os pensamentos íntimos de alguém, esses pensamentos que a pessoa permite exprimir por meio da escrita, não é possível saber quem é essa pessoa, mas sim quem ela já foi.

Só posso avaliar por mim, e quando escrevo sei que me despeço de partes de mim, de sentimentos, de dores, de saudades e se ainda não me despedi, escrevo como um convite para que se retire e ganhe liberdade aquilo que me aperta o peito. O resto é segredo, pois todos os temos.

Diga o que for verdade

Dê o nome certo para as coisas. E quando falo de coisas, entenda que falo desses sentimentos e anseios que você tem.

Não chame de confusão o que na verdade é medo. Não chame de amor o que é desejo, não chame de paixão o que é tesão. Não que tenha algum problema em sentir uma coisa ou outra, mas trocar as palavras para chamar aquilo que na verdade não é, é expressar de forma completamente vazia e falsa um sentimento que sai de você, e sentimentos também merecem a verdade, assim como nós merecemos. Mesmo que doa, mesma que seja difícil, mesmo que seja frágil.

Manhãs e café puro

Na primeira hora da manhã, quando um de nós acorda antes do outro, é sempre nessa hora que eu sinto que isso vai acabar. Precisa acabar.

É essa grande diferença, esse abismo entre você e eu.
Queria que você morasse no meu silêncio e mergulhasse fundo no meu pensamento enquanto eu te observo levantar, escancarar a janela, calçar os chinelos e caminhar até a cozinha.
Eu fico aqui fazendo do edredom meu canto seguro, e fico pensando em tudo que eu poderia fazer exatamente agora. Queria fechar a janela, te trazer de volta para o único lugar onde não existe esse grande abismo entre você e eu.
Mas eu sou toda silêncio pela manhã. Eu sou toda pensamento. Você bate as portas, as gavetas, derruba copos e talheres, liga a máquina de café, abre a torneira, bate o pé. Você grita meu nome.

– Vem tomar café!

E é isso. É café puro. Sem açúcar. Eu vou, calada, porque não sei o que me acontece pela manhã. Você me olha nos olhos, finge deboche, mas eu sei que no fundo isso é uma dor. A dor de não saber. Na realidade… a dor de saber que nunca vai descobrir. É isso, não é? É isso que te dói. Não me entender, não conseguir enxergar o que eu já vi. Mas ainda é cedo demais, eu falaria, eu até falaria. Mas pela manhã eu prefiro o silêncio.
E é aqui que você me diz que dormiu com uma e acordou com outra. Queria te contar que sou a mesma pessoa, mas você não entenderia. Por isso te dou apenas meu silêncio.